O Peso da Verdade
O suor escorria pelos olhos de Elias, ardendo como ácido enquanto ele se arrastava pelos dutos de ventilação do Nível Inferior. O silêncio do subsolo era interrompido apenas pelo zumbido frenético do seu terminal portátil, uma peça de sucata modificada para extrair os logs de batalha que a Arena tentara apagar. O cronômetro da Torre, visível através das grades do duto, marcava menos de duas horas para a próxima inspeção dos Enforcers. Eles viriam buscar o frame, mas antes, viriam buscar a cabeça de quem havia exposto a drenagem de energia vital dos cadetes.
— Elias, pare — a voz de Marta ecoou pelo comunicador, trêmula. — Se você terminar esse download, não haverá retorno. Eles vão apagar você, não apenas o seu nome.
— Eles já apagaram a nossa linhagem, Marta — Elias respondeu, os dedos calejados digitando comandos de descriptografia com precisão cirúrgica. O log, antes uma massa de ruído estático, ganhou forma. A tela brilhou com um gráfico de fluxo de energia que ele reconhecia bem: o mesmo padrão de drenagem neural que quase o matara no segundo andar. Não era uma falha. Era uma assinatura. O pai não morrera por erro de pilotagem; ele fora drenado para alimentar a elite da Academia. A revelação atingiu Elias com o peso de uma sentença de morte, transformando sua luta em uma vingança geracional.
O apartamento cheirava a ozônio e desespero. Quando Elias terminou a extração, o log de batalha do segundo andar rolava em linhas de código carmesim. O som de botas pesadas ecoou no corredor. Vargas estava lá. O metal batendo no concreto não deixava dúvidas: os Enforcers não perderiam tempo com tribunais.
— Eles chegaram — disse Elias, a voz fria. Ele não tinha o Vanguard-Zero, mas tinha o protótipo. O módulo, ainda quente, pulsava em sua mão. — Eles querem o que prova que a Torre é uma fornalha. Vou dar a eles, mas não do jeito que esperam.
Elias sobrecarregou o módulo, criando uma distração explosiva que obliterou a porta do apartamento. Enquanto o corredor era engolido por um clarão de energia estática, ele saltou pela janela, despencando para as entranhas da Torre. Sem frame, mas carregando a prova que poderia derrubar o Conselho, ele se infiltrou na oficina de descarte da Academia.
O Vanguard-Zero estava suspenso por cabos, seus membros desarticulados. A equipe de Vargas extraía o núcleo, buscando o rastro do módulo. Elias disparou seu pulso de interferência. As luzes da oficina oscilaram e morreram. O sistema de segurança reagiu com alarmes metálicos, mas Elias alcançou o console de controle. Ignorando a dor aguda em suas têmporas — o custo da integração neural — ele conectou os dados da drenagem diretamente ao núcleo do frame. O Vanguard-Zero despertou com uma assinatura de energia proibida, um rosnado de metal instável que fez as paredes vibrarem.
Ele não corria; ele se arrastava, as articulações protestando contra a sobrecarga. À sua frente, o portal do terceiro andar pulsava como uma guilhotina. Drones de patrulha desceram do teto, bloqueando o caminho.
— Alvo identificado. Protocolo de purga ativado — a voz sintética ressoou.
Elias mergulhou atrás de um pilar enquanto feixes de plasma chamuscavam o corredor. Com os dedos trêmulos, ele acessou o terminal público da Torre. O upload dos logs começou. A cidade inteira, conectada aos telões, viu a verdade: a drenagem de energia vital dos cadetes. No momento em que o portal se abriu, Elias cruzou a fronteira, deixando para trás a segurança do sistema e entrando em um terceiro andar que o receberia como o alvo número um da Academia, preso dentro da estrutura que ele acabara de desmascarar.