Ferrugem e Glória: O Leilão da Sucata
O cronômetro holográfico sobre o pátio de descarte da Academia de Ranqueamento não era apenas um número; era um veredito. Quarenta e dois minutos restavam antes que o Vanguard-Zero, o último legado de metal da família de Elias, fosse confiscado por inadimplência crônica. O frame, um amontoado de placas oxidadas e juntas hidráulicas rangentes, parecia encolher sob a luz artificial impiedosa da arena.
Elias sentiu o peso do olhar de Vargas, o Enforcer da Academia, que observava a cena de uma plataforma elevada. O sorriso de Vargas era afiado, desprovido de qualquer empatia, como se ele estivesse apenas esperando o momento em que a dívida de Elias se tornasse, finalmente, um problema resolvido pelo confisco.
— A sucata não vai se consertar sozinha, Elias — a voz de Vargas ecoou pelos alto-falantes, carregada de um escárnio público que fez os cadetes ao redor rirem. — Talvez, se você tivesse a decência de desistir, não passaria tanta vergonha diante das câmeras.
Elias ignorou o comentário, embora o calor da humilhação subisse pelo pescoço. Seus olhos vasculhavam a pilha de entulho eletrônico. Ele não estava ali pela glória; estava ali para manter sua família viva. Entre carcaças de motores queimados e chicotes de fios derretidos, algo cintilou: um módulo de processamento de interface, ainda selado em uma carcaça de protótipo experimental. O leilão relâmpago começou. Elias apostou cada centavo que tinha, deixando sua conta bancária em um zero absoluto. Quando o martelo virtual bateu, o módulo era seu, mas o custo foi a última reserva de combustível para o mês.
De volta à oficina precária no Setor Baixo, o ar cheirava a ozônio e desespero. Marta, sua tia, vigiava a rua pela fresta da cortina metálica, o corpo tenso.
— Elias, se os sensores detectarem uma assinatura de energia não registrada, eles não vão apenas confiscar o frame — sussurrou ela. — Eles vão apagar nossa existência da rede.
Elias não respondeu. Ele abriu a cavidade torácica do Vanguard-Zero. O hardware era incompatível; os pinos do protótipo tinham um espaçamento que a engenharia padrão da Academia considerava impossível. Ele forçou o encaixe, ouvindo o metal gemer. Quando a alavanca de recalibração desceu, o sistema de diagnóstico, um monitor de tubo de raios catódicos rachado, brilhou com um código de erro desconhecido. O frame tremeu, uma frequência de energia azulada percorrendo seu chassi, revelando um potencial de processamento que faria qualquer modelo de elite parecer um brinquedo.
O silêncio da oficina foi quebrado pelo som de botas metálicas. O portão foi erguido. Vargas entrou, acompanhado por guardas com lacres magnéticos, o olhar fixo no frame que agora pulsava com uma vida nova.
— A dívida venceu, Elias — disse Vargas, a voz soando como uma sentença. — O frame será reduzido a sucata.
Elias se colocou entre o oficial e o peito de metal do Vanguard-Zero. A energia do módulo ainda formigava em suas mãos.
— Ele não é sucata — rebateu Elias, a voz firme, desafiando a autoridade do Enforcer. — E eu vou provar. Amanhã, no primeiro andar da Torre, vou limpar o setor em tempo recorde. Se eu conseguir, a Academia revisa o status da minha linhagem.
Vargas parou, um brilho perverso nos olhos. Ele sorriu, um gesto lento e predatório.
— Seu frame é lixo, Elias. Amanhã, no primeiro andar, vou garantir que ele vire sucata de verdade. E quando você falhar, não haverá mais oficina, nem família, nem desculpas.