Ameaça de Expurgo
O ar no Setor 4 não cheirava a ozônio; cheirava a fim de linha. Kaelen observava pelo monitor de baixa resolução: drones de contenção da Academia, com o selo do Conselho brilhando em um azul frio e clínico, bloqueavam todas as saídas do laboratório de descarte. Eles não estavam ali para uma auditoria. Estavam ali para uma esterilização.
— Kaelen, eles rastrearam a assinatura biossintética do seu frame durante o último overclock — a voz de Valéria, vinda do comunicador, era um fio de tensão prestes a romper. — Não é uma inspeção. Eles vieram apagar a evidência de que a tecnologia existe. E nós somos a evidência.
Kaelen sentiu uma fisgada na base do crânio, o preço da interface orgânica que ele pilotava. O contador em seu visor marcava 48 horas para o vencimento da dívida de 520 mil créditos. Ele não tinha mais o luxo de ser um estudante; era um ativo de risco a ser liquidado. Ele acionou a ignição. O frame respondeu com um gemido hidráulico, um som metálico que parecia um lamento. Não havia munição convencional, apenas a instabilidade do chassi biossintético.
Ele avançou. O frame tornou-se um borrão de aço e carne sintética, rompendo a blindagem do laboratório. O impacto contra a linha de frente da segurança privada foi brutal. Kaelen sobrecarregou os escudos dos guardas, usando a ressonância proibida de seu motor para disparar um pulso eletromagnético que desativou os drones. Cada movimento forçava uma descarga de eletricidade estática em seu sistema nervoso. A dor era um lembrete constante: ele estava pagando com o próprio corpo pela chance de sobreviver.
Valéria surgiu das sombras, segurando um drive de dados contra o peito. Ela subiu no estribo do frame, os olhos fixos na destruição que deixavam para trás.
— Estes dados ligam a sabotagem do seu pai diretamente ao fundo de pensão da elite acadêmica — ela gritou sobre o ruído dos alarmes. — Se nos pegarem, não haverá julgamento. Eles vão nos apagar.
Eles romperam a barreira externa, mas o som das sirenes da Academia ecoava por todo o complexo. Kaelen não era mais um competidor na escada; era um fugitivo. Escondidos nos subníveis, onde o brilho das luzes da cidade mal alcançava, o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido dos drones de vigilância varrendo a superfície acima.
— O investidor que me contatou é um dissidente do alto escalão — Valéria disse, conectando o drive a um terminal improvisado. — Ele quer que você seja o rosto da revolta. Mas, Kaelen, ao iniciar essa transmissão, você não estará apenas pagando sua dívida. Você estará declarando guerra aberta.
Kaelen encarou o botão de upload. A dívida de 520 mil créditos pesava como um grilhão, mas a prova da corrupção, ali na palma de sua mão, era uma arma. Ele olhou para o frame, com as juntas expostas e os cabos orgânicos pulsando em um ritmo fraco. O próximo nível da escada não era o ranking; era a destruição do sistema que o sustentava. Ele tocou a interface, sentindo a conexão biossintética queimar sob sua pele. A transmissão estava pronta. No momento em que o sinal fosse disparado, não haveria retorno.