Alianças Perigosas
O zumbido do Ferrugem não era mais um ruído mecânico; era uma pulsação errática que subia pela coluna de Kael, um eco da sobrecarga harmônica que quase derretera os circuitos do frame. Escondido nos dutos de exaustão da Arena Delta, o ar tinha gosto de ozônio e ferrugem úmida. O contador de dívida, projetado em um brilho âmbar no display rachado, marcava apenas doze minutos de sobrevida. Se não conseguisse estabilizar a assinatura energética do frame, a Academia não precisaria de uma armadilha iônica; o próprio Ferrugem se autodestruiria.
— Você está jogando com um fantasma, Kael — uma voz feminina cortou o silêncio metálico.
Kael não girou o frame. Ele já sabia que estava sendo observado desde que acessara a rota subterrânea. Mara emergiu das sombras, vestindo um traje de manutenção remendado, as mãos sujas de graxa condutiva. Ela era a líder da dissidência local, um grupo cujos frames haviam sido descartados por Silas.
— O Ferrugem não é um fantasma, é um mapa — Kael respondeu, a voz rouca pelo esforço. Ele ajustou os estabilizadores, sentindo o calor residual do motor de elite que arrancara de Valerius. — E eu não tenho tempo para filosofias. Preciso de um dissipador de carga de alta densidade. Agora.
Mara tocou o metal exposto do Ferrugem com uma reverência estranha. — Eu tenho a peça. Mas o preço não é crédito, Kael. É o seu acesso à rede. Se você nos der a chave mestra, podemos derrubar a telemetria de Silas durante a próxima auditoria.
Enquanto Kael negociava, nos hangares superiores, a pressão era de outro tipo. Elena Vane caminhava sobre o piso polido, o som de suas botas ecoando com uma precisão que contrastava com a desordem que ela buscava. Sua mão repousava sobre o terminal de telemetria, onde os dados da última prova de Kael ainda brilhavam em um vermelho incômodo. O Ferrugem não deveria ter sobrevivido àquela auditoria.
— Ele não é apenas um azarão, Elena — a voz do Diretor Silas ecoou pelos alto-falantes, fria. — Ele é um erro de sistema. Se o Ferrugem continuar a acessar a rede, o ranking deixará de ser mérito para se tornar uma piada. A próxima prova, a Auditoria de Sucata, será o fim dele.
Elena sentiu o peso da linhagem Vane. Sua família esperava que ela eliminasse o problema. Ela observou os rastros de energia residual deixados por Kael — anomalias que confirmavam o uso da técnica banida. A habilidade dele em manipular o fluxo da rede a deixava com um gosto amargo de inveja. Por que ele, um piloto de carcaça, conseguia extrair mais do que ela com toda a tecnologia de ponta que possuía?
De volta ao santuário dos dissidentes, Mara deslizou um módulo de expansão de telemetria sobre a bancada. A peça, um componente banido de Classe A, brilhava com um azul elétrico.
— Isso vai sincronizar seu frame com a rede de energia da Academia — disse ela. — Mas você vai abrir uma porta traseira nos registros de Silas. Precisamos que você exponha o fluxo de recursos ilegais que ele desvia para os protegidos da elite.
Kael sentiu o peso da escolha. Aceitar a peça significava transformar o Ferrugem em uma ferramenta de espionagem. Se Silas descobrisse, a execução seria pública. — Se eu fizer isso, serei um peão de vocês tanto quanto sou um escravo da Academia — Kael murmurou, mas seus dedos já buscavam a peça.
Horas depois, no hangar clandestino, o ar estava denso. Kael ajustou o último parafuso do dissipador. O display rachado piscava em um laranja febril, indicando que a sincronia entre piloto e máquina atingira um nível crítico. O custo foi imediato: um tremor constante em suas mãos e uma náusea ácida que subia pela garganta.
"Atenção, pilotos", o sistema da Academia anunciou. "Auditoria de Sucata iniciada. Risco Classe Delta: ativado. A zona de prova será saturada com descarga iônica de alta densidade."
Kael sentiu um frio na espinha. Silas não estava apenas testando sua habilidade; estava tentando fritar o sistema nervoso do Ferrugem — e o dele junto. A armadilha era clara: a descarga iônica visava o piloto. Ele olhou para a peça instalada, o brilho azul pulsando em uníssono com o seu batimento cardíaco. Se a peça dissidente falhasse, ele morreria em segundos. Se funcionasse, ele teria o poder de derrubar o sistema. Ele fechou a cabine, sabendo que a lealdade à facção era o preço pela peça que o tornaria imbatível, mas que também selava seu destino como o maior inimigo da Academia.