Segredos Sob o Metal
O ar na Arena Delta tinha gosto de ozônio e derrota. O Ferrugem, com a carcaça estalando sob o peso do motor de elite recém-integrado, ainda soltava faíscas de seus atuadores sobrecarregados. No centro da arena, o frame de Valerius era apenas uma carcaça inerte, um monumento de metal nobre que Kael acabara de desmantelar.
O silêncio nas arquibancadas não era de admiração; era de choque. O Diretor Silas surgiu na passarela superior, a silhueta rígida contra a iluminação fria do teto. Seus olhos, estreitados como lâminas, fixaram-se no Ferrugem.
— Apreendam essa máquina — a voz de Silas reverberou pelo sistema de som, gélida e amplificada. — Danos estruturais de Classe Delta. O frame representa um risco de contaminação iônica para a rede da Academia.
Kael sentiu o suor frio escorrer pelas costas. O contador de dívida em seu visor, antes um borrão vermelho de urgência, piscava agora em um âmbar estável, mas o perigo não havia recuado. Dentro do cockpit, o painel central não exibia apenas os diagnósticos de rotina. Fractais de luz azul, complexos e alienígenas, dançavam sobre a telemetria oficial, revelando um mapa da rede de energia da Academia que não deveria existir. O Ferrugem não estava apenas operando; ele estava escutando.
Dois guardas de prontidão, armados com bastões de supressão, saltaram para a arena. Kael travou os atuadores do Ferrugem, ignorando o gemido metálico das juntas. Ele disparou uma rajada de sinal no canal aberto da arena, forçando a transmissão para todos os dispositivos dos espectadores.
— Espólio de Duelo, Diretor — Kael replicou, sua voz firme, projetada para que cada microfone captasse. — O regulamento é claro: o vencedor de um duelo sancionado retém os componentes integrados. Tentar apreender meu equipamento agora não é inspeção; é roubo institucional diante de testemunhas.
Silas hesitou. O murmúrio da multidão crescia, uma onda de descontentamento que ameaçava a fachada de meritocracia da Academia. O Diretor recuou, mas o sorriso que lançou foi uma promessa de destruição. Kael não esperou. Manobrou o Ferrugem para fora da arena, sentindo o motor de elite zumbir sob o chassi, enquanto a telemetria da Academia tentava, insistentemente, 'pingar' sua localização para desativá-lo remotamente.
No hangar, o cheiro de graxa e metal queimado era o perfume da sobrevivência. Kael conectou o terminal de diagnóstico portátil, seus dedos sujos de óleo tateando a conexão improvisada. O sistema despejou uma cascata de dados. O Ferrugem não estava apenas se conectando à rede; ele estava mapeando os dutos de energia que Silas usava para sufocar frames obsoletos. Um alerta vermelho estourou: Firewall de Nível 7 detectado. Rastreamento ativado.
Kael não podia recuar. Ele usou a técnica da sobrecarga harmônica, não para lutar, mas para alimentar o firewall com um loop de dados falsos, uma assinatura técnica que imitava os protocolos da família Vane. O rastreamento foi desviado, dando-lhe o respiro necessário. Foi então que Silas entrou, seus sapatos polidos ecoando no metal.
— Um desempenho curioso — Silas disse, parando sobre uma placa de circuito exposta. — O motor que você extraiu de Valerius é propriedade da instituição. Entregue-o, e eu esqueço a sua sobrecarga harmônica. Caso contrário, a próxima prova não será um duelo. Será uma auditoria de sucata. E você sabe o que acontece com frames obsoletos na Prova Delta.
Kael, sem se levantar da escotilha, gravou a conversa.
— A auditoria será pública, Diretor? Porque o público adoraria ver como a Academia trata seus aspirantes.
Silas saiu, mas o protocolo de ‘Risco de Segurança Classe Delta’ foi ativado no painel do hangar. A armadilha estava armada. Kael, sozinho, tentou estabilizar o Ferrugem para a prova, mas o frame começou a vibrar. Não eram danos; era uma frequência de rádio desconhecida, uma sequência que contornava todos os firewalls. O sistema de navegação girou com precisão cirúrgica, ignorando Kael, e projetou um mapa detalhado da rede de energia da Academia. O Ferrugem não era sucata. Era uma chave mestra. E a próxima prova, ele percebeu, não seria apenas uma batalha; seria o momento de abrir as entranhas do sistema que tentava matá-lo.