A Primeira Fenda
O salão do Fasano não era um ambiente; era um tribunal de inquisição disfarçado de gala. Beatriz sentia o peso dos olhares da elite paulistana como agulhas, cada um avaliando a autenticidade da "Helena" que ocupava o posto de noiva. Sob a seda do vestido, a borda rígida dos documentos de herança — sua única apólice de seguro contra a miséria — pressionava sua pele, um lembrete constante de que ela não era uma convidada, mas uma infiltrada prestes a detonar o sistema.
— Beatriz, querida, você parece... diferente. Menos ansiosa, talvez? — Cecília, uma socialite cujo sorriso era tão afiado quanto seu veneno, inclinou-se, o perfume caro mascarando o odor de desdém. — O casamento com Rafael costuma drenar a cor de qualquer uma. Você parece ter encontrado uma fonte de energia bem peculiar.
Beatriz sustentou o olhar, mantendo o sorriso gélido que aprendera a usar como escudo. — A exaustão é um privilégio de quem não tem um império para gerir, Cecília. Rafael e eu estamos focados na fusão. O resto é ruído.
Antes que Cecília pudesse destilar mais veneno, uma mão firme pousou na base da coluna de Beatriz. O toque de Rafael não era um carinho; era uma declaração de posse que silenciou o grupo instantaneamente. Ele não a olhou, mas sua presença ao lado dela era um muro de contenção.
— Agradeço a preocupação, Cecília, mas minha noiva está sob minha responsabilidade exclusiva esta noite — a voz de Rafael era fria, cortante. — Com licença.
Ele a conduziu para fora do salão, seus dedos apertando o tecido do vestido com uma força que quase rasgava o forro onde a prova da fraude estava oculta. Assim que a porta da sala reservada se fechou, o silêncio tornou-se denso, carregado pelo cheiro de mogno e pela eletricidade estática de uma negociação que nunca terminava.
— O jogo de aparências foi impecável — ele disse, sem se virar, observando as luzes da Avenida Paulista. — Mas a sua insistência em auditar as contas da holding durante o jantar foi um erro perigoso. Você não foi contratada para investigar o meu império.
Beatriz avançou, seus saltos ecoando no tapete persa. — Eu não fui contratada para ser uma boneca de porcelana, Rafael. Se vou colocar meu pescoço na guilhotina para manter a sua fusão de pé, preciso saber o que exatamente estou protegendo. Ou melhor, de quem estou me escondendo.
Rafael girou sobre os calcanhares. Seus olhos, frios e analíticos, percorreram a silhueta dela, parando exatamente onde o forro escondia os documentos. Ele invadiu seu espaço pessoal, não com desejo, mas com a pressão de um predador que reconhece um desafio.
— A fusão é o único pilar que sustenta o meu império — ele sibilou. — Helena era a chave que garantia a confiança dos credores. Sem ela, ou sem alguém que a substitua perfeitamente, o castelo de cartas desmorona. Eu cairia muito mais fundo do que você, Beatriz. É por isso que você ainda respira.
Beatriz não recuou. Ela viu a fenda na armadura dele: o desespero. Rafael não a protegia por nobreza, mas porque sua dívida pessoal dependia daquela farsa até o fechamento da fusão. Ela tinha o poder de destruir o castelo de cartas dele antes mesmo de tocar na sua família.
Ela notou, então, a palma da mão dele — cortada por uma taça de cristal que ele esmagara em um momento de fúria contida. Sem pedir permissão, ela pegou o kit de primeiros socorros sobre o aparador. Suas mãos, firmes, seguraram o pulso dele. O toque foi um choque: a pele de Rafael era quente, mas o pulso sob seus dedos batia com uma urgência que não condizia com sua postura gélida.
— Você me dará acesso aos registros financeiros — ela murmurou, limpando o sangue com precisão cirúrgica. — Ou a fusão não acontece. Escolha: me ter como aliada ou como o motivo da sua ruína.
Rafael a observou com uma intensidade que parecia querer dissecar sua alma. Ele cedeu, um brilho de respeito relutante surgindo em seus olhos. — Reunião de diretoria, amanhã. Esteja pronta.
Beatriz saiu do escritório sentindo-se vitoriosa, mas o destino tinha outros planos. No corredor de serviço, uma figura emergiu da penumbra: Helena. O vestido de seda idêntico ao de Beatriz parecia deslocado, e o rosto da irmã exibia um desespero febril.
— Você acha que pode simplesmente ocupar o meu trono? — Helena sibilou, agarrando o pulso de Beatriz. — Rafael sabe quem você é. E se ele souber que você tem as provas da fraude, ele não vai te proteger. Ele vai te enterrar junto com o resto da sujeira da família.