Contrato de Aparências
O cristal da taça de champanhe pesava como chumbo na mão de Beatriz. No salão do Hotel Fasano, o zumbido das conversas da elite paulistana era um ataque constante, cada risada soando como uma nota dissonante em sua farsa. Ela era Helena, a noiva perfeita, envolta em seda italiana e diamantes que não lhe pertenciam, enquanto o peso real — os documentos de sua legitimidade — repousava como uma lâmina fria contra sua coxa, escondido sob as camadas do vestido.
— Você está muito silenciosa, querida. A timidez não combina com o seu novo status — a voz de um investidor, um homem cujas mãos haviam ajudado a apagar o nome de Beatriz dos registros da empresa anos atrás, cortou o ar. Ele a observava com um brilho de desconfiança que a fez endurecer a postura.
Beatriz forçou um sorriso, um exercício de controle absoluto. Ela sabia que qualquer deslize poderia ser o fio a desenrolar a tapeçaria de mentiras que ela era obrigada a sustentar.
— O peso do compromisso exige reflexão, não tagarelice, senhor — respondeu ela, a voz gélida, destituída da volatilidade habitual de Helena. O investidor piscou, surpreso pela elegância cortante, mas antes que pudesse retrucar, uma mão firme pousou na base de suas costas. O toque de Rafael era possessivo, calculado, carregado de uma eletricidade que não era carinho, mas uma ordem silenciosa.
Eles se moveram para o bar do hotel, um refúgio de mogno e penumbra. O investidor, sentindo-se encorajado pela proximidade, insistiu:
— Então, Helena, a fusão entre as holdings será concluída na segunda-feira? O mercado está ansioso por detalhes que, estranhamente, você evitou comentar durante todo o coquetel.
Beatriz sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela não sabia nada sobre os números que a herdeira real deveria ter decorado. O silêncio esticou-se como um convite ao desastre. O investidor deu um passo à frente, um sorriso de escárnio brotando em seus lábios ao perceber a hesitação dela. Antes que ela pudesse balbuciar uma resposta desastrosa, Rafael a puxou para mais perto, o corpo dele servindo como uma muralha entre ela e o homem.
— Minha noiva e eu preferimos manter os detalhes estratégicos longe de ouvidos curiosos antes da assinatura final — a voz de Rafael era um comando, fria e absoluta. Ele olhou para o investidor com um desdém que fez o homem recuar um passo. — Sugiro que se preocupe com seus próprios dividendos, não com os nossos.
Quando o homem se retirou, a proteção de Rafael não diminuiu; ela se tornou uma gaiola. Ele a conduziu para a varanda privativa, fechando a porta de vidro atrás de si. O ar lá fora era rarefeito, carregado com o perfume caro de convidados que brindavam a uma farsa.
— Você caminha como se fosse dona do lugar, apesar de saber que é uma intrusa — Rafael murmurou, invadindo seu espaço pessoal, os olhos escuros fixos nela com uma intensidade predatória. — Helena nunca teve essa postura. Ela era… maleável.
Beatriz não desviou o olhar. Ela se endireitou, ciente de que cada centímetro de sua dignidade era sua única defesa contra o homem que a mantinha sob chantagem.
— Helena fugiu, Rafael. Se você quer que a fusão ocorra, vai precisar lidar com a versão de mim que está aqui agora.
Ele soltou uma risada seca, sem humor, e bloqueou sua saída, apoiando uma mão na parede ao lado de seu rosto. O gesto era protetor para quem visse de fora, mas para ela, era uma cerca eletrificada.
— Você não é Helena. Eu sei disso desde o altar. Mas meus credores não podem saber. Se você cair, eu perco tudo. E, acredite, eu não cairei sozinho.
O som abafado da orquestra no salão parecia uma contagem regressiva. Beatriz caminhou pelos corredores de mármore, o peso do papel timbrado escondido no forro do vestido pesando como uma sentença de morte. Cada passo era uma performance, até que uma mão firme a puxou para a sombra de uma coluna. Rafael não pediu licença. Ele a encurralou contra a parede fria, o corpo bloqueando qualquer saída. O perfume amadeirado dele invadiu o espaço pessoal de Beatriz.
— O jogo de aparências terminou, Helena — disse ele, a voz baixa, cortante como vidro. — Ou melhor, quem quer que você seja. O seu perfume, o jeito como você evita o contato visual com quem conhece a Helena há anos… você não é ela.
Beatriz sentiu o sangue gelar, mas manteve o queixo erguido. Ela sentiu a borda do documento através do tecido; uma prova de que a fortuna que Rafael tentava salvar pertencia, por direito, a ela. Ele a encurralou contra a parede, exigindo a verdade enquanto os convidados aplaudiam o casal que ele ainda não conhecia, deixando a farsa por um fio.