A última transmissão
O ar na torre de transmissão do Santuário tinha o gosto metálico de ozônio e poeira secular. Lucas tateou o compartimento inferior da relíquia, seus dedos calejados de restaurador ignorando o tremor que subia pelos braços. O cronômetro, fixado na base do objeto, brilhava com uma luz azul gélida: 05:42:12. Não era apenas uma contagem; era um batimento, sincronizado com o próprio pulso de Lucas, acelerando a cada tentativa de forçar o hardware.
— Se eles chegarem à porta, não tente negociar — disse Beatriz, a voz cortante enquanto ajustava os cabos de fibra ótica na antena principal. Ela estava pálida, os olhos fixos na interface que ela mesma ajudara a projetar. — Meu pai sabe que estamos aqui. A segurança privada não vem para prender, Lucas. Eles vêm para limpar o servidor.
Lucas forçou a chave de fenda de precisão na fenda lateral da relíquia. Um estalo seco ecoou e o metal cedeu, revelando não apenas circuitos, mas uma série de microfilmes escondidos sob a placa-mãe. Provas. O livro-razão da cidade, assinado por seu próprio pai, estava ali, embutido no hardware que drenava a vida daquela gente. A traição do homem que ele tentara inocentar por anos atingiu seu peito como um soco. Ele não tinha tempo para o luto.
— A rede elétrica está instável — Lucas murmurou, conectando o núcleo da relíquia ao mainframe da torre. — Se eu sobrecarregar o transformador principal, o sinal será forçado para fora. Mas isso vai consumir o que resta do meu tempo.
Beatriz não respondeu. Ela sabia o preço. Enquanto o sistema começava a subir a carga para a nuvem, pacotes de dados começaram a ser disparados para autoridades externas. Mas, no mesmo instante, o cronômetro saltou de forma cruel: 02:00:00.
O cerco se fechou em minutos. As sirenes da polícia local, braço armado da elite, cortavam a neblina como lâminas. Beatriz tentava hackear o terminal de segurança, mas a tela exibiu um bloqueio remoto. A voz de seu pai, fria e amplificada, ecoou pelos alto-falantes do Santuário: “Beatriz, a lealdade tem um custo que você ainda não compreendeu. Entregue o dispositivo e a vida de Lucas será poupada. Caso contrário, a purificação será feita com o sangue de ambos.”
Lucas encarou Beatriz. O monitor do Santuário, agora conectado à relíquia, exibia o livro-razão em tempo real. Milhares de nomes, dívidas, liquidações. O nome do pai de Lucas estava em negrito, um dos arquitetos daquela carnificina.
— Você sabia que ele estava envolvido — Lucas disse, a voz rouca, sentindo a traição arder mais que o medo. — Você sabia que a polícia era o guarda de honra dessa execução e me trouxe para cá mesmo assim.
Beatriz não desviou o olhar, embora seus dedos tremessem sobre o teclado. — Eu precisava que você visse o que eu vi. A verdade não tem preço, Lucas. Nem mesmo o nosso.
A porta reforçada da sala de controle rangeu sob o peso de um aríete. O cronômetro, agora em 01:00:00, piscava em um vermelho sincronizado com as luzes de emergência do Santuário. O zumbido da relíquia tornou-se ensurdecedor, uma vibração que subia pelos dentes de Lucas.
— O que você fez? — ele perguntou, recuando enquanto a porta finalmente cedia, revelando os uniformes negros da polícia da elite.
Beatriz, com um sorriso triste e resignado, olhou para o dispositivo. — Eu não apenas ajudei a sabotar, Lucas. Eu fui a primeira a ativar o protocolo, anos atrás, quando achei que a dívida da minha família poderia ser paga com a fé dos outros. Eu só não sabia que o sistema exigia o dono como lastro.