A contagem regressiva em alta definição
O zumbido não era mecânico. Lucas cravou a ponta da chave de fenda de precisão na carcaça de carvalho da caixa de música, mas o som persistia — uma frequência metálica, aguda, que fazia seus dentes doerem. Na oficina, o cheiro de verniz antigo competia com o aroma enjoativo de incenso que soprava da praça da matriz, o perfume oficial da elite de Santuário.
— Vamos, abra logo — sibilou Lucas para a relíquia, ignorando o suor que escorria por suas têmporas. Ele odiava aquele objeto. A peça, uma caixa de música do século XIX, fora entregue por um cliente cujas mãos tremiam tanto que deixaram marcas de gordura no polimento impecável. O trabalho era simples: restaurar o cilindro de pinos. Mas, desde que a trouxera para a bancada, o clima na oficina mudara. Seu celular, jogado ao lado de um estojo de pinças, começou a vibrar violentamente, não com uma notificação, mas com uma interferência estática que distorcia a luz das lâmpadas fluorescentes.
Lucas forçou a alavanca interna. Um estalo seco, não de madeira cedendo, mas de um circuito impresso rompendo-se. O fundo falso da caixa de música se soltou, revelando não engrenagens, mas um emaranhado de cabos de fibra óptica e uma tela de smartphone embutida, colada com resina industrial ao mecanismo de corda. A tela acendeu, banhando o rosto cético de Lucas em uma luz azul fria.
O cronômetro digital brilhava: 72:00:00. Abaixo dele, uma transmissão ao vivo mostrava o interior da própria oficina, vista de um ângulo superior, como se houvesse uma câmera escondida no teto.
O cheiro de ozônio tornou-se insuportável. Lucas recuou, derrubando uma caixa de parafusos que se espalharam pelo chão de concreto como granizo.
— É um erro de rede, Beatriz. Apenas um hack de má qualidade — disse Lucas, sem desviar o olhar do cronômetro. O número mudava: 71:59:42. — Alguém está injetando um script de terror psicológico na rede local. É puro marketing de choque da elite para manter o povo em pânico.
Beatriz estava parada na entrada, o casaco caro demais para a poeira da oficina, a postura rígida de quem carregava o peso de um sobrenome que a cidade inteira reverenciava. Ela não olhou para as ferramentas. Seus olhos estavam fixos na caixa de música.
— Não é um hack, Lucas. E você sabe disso — a voz dela era baixa, destituída da arrogância habitual. — A relíquia não está transmitindo para a internet. Ela está transmitindo para o seu histórico. O cronômetro não é um vídeo. É uma cobrança.
Lucas soltou uma risada seca, o som ecoando no galpão vazio. Ele pegou um martelo de estofador, o cabo de madeira gasto pela rotina de restaurações que, até aquela manhã, faziam sentido. A frustração, acumulada desde a morte de seu pai e alimentada pela arrogância daquelas famílias que governavam a cidade com o peso da 'dívida espiritual', explodiu.
— Lucas, não! — Beatriz deu um passo à frente, a mão estendida, o rosto pálido. — Se você quebrar o vidro, o ciclo não termina. Ele se retroalimenta. Você só vai acelerar o que já está em curso. A dívida da minha família está ligada a esse mesmo mecanismo. Se você destruir isso agora, nós dois seremos os próximos a pagar o preço.
Ele não a ouviu. Com um golpe seco, ele mirou o vidro que protegia o mecanismo central. O impacto deveria ter estilhaçado a peça. Em vez disso, o objeto absorveu o golpe como se fosse um músculo se contraindo. O cronômetro na tela saltou, os números girando em uma velocidade vertiginosa até travarem em 48:00:00. O som do relógio mecânico do pai de Lucas ecoou nas paredes da oficina, o tique-taque agora sincronizado com o batimento cardíaco dele, marcando o início de uma contagem que ele não poderia mais parar.