Contagem Zero
A tela do meu smartphone não tremeluziu; ela sangrou o azul elétrico para um branco estéril. Em um milissegundo, a transmissão que me custou a sanidade — o arquivo bruto que expunha a farsa da relíquia — tornou-se um vazio digital. O servidor não apenas deletou o conteúdo; ele apagou a evidência de que a própria transmissão ocorrera.
Senti um zumbido agudo nos dentes, uma dor física que acompanhou o colapso da rede. Ao meu lado, Beatriz permanecia inerte, a pele pálida sob a luz fria do apartamento 402. O prédio da minha infância, agora uma fortaleza de poeira e segredos, tremia com as sirenes da polícia digital que subiam a rua alagada. Olhei para o dispositivo: o contador, que antes marcava os minutos finais de uma verdade que ninguém quis ouvir, saltou para um novo ciclo. Doze horas. O sistema não estava apenas se protegendo; estava reiniciando a colheita, alimentando-se da negação coletiva das pessoas lá fora que, naquele exato momento, esqueciam que tinham visto algo perturbador.
— Beatriz, acorda — sibilei, sacudindo-a. Ela não respondeu. A arquivista estava presa em algum lugar que eu não conseguia alcançar, conectada a uma interface que drenava sua vida.
No centro da sala, meu pai, uma carcaça humana sustentada por fios de cobre e fibra ótica, mantinha os olhos fixos no vazio. Ele era o nó central, a âncora que mantinha a mentira viva.
— Você não entende, Lucas — a voz dele era um chiado metálico. — A crença coletiva é a única infraestrutura que resta. Se eu soltar, o colapso não será apenas digital. Será o fim da coesão social.
Senti o peso do alicate de corte em minha mão. Não podia permitir que o ciclo continuasse. Com um movimento seco, rompi o cabo principal de fibra que ligava a nuca dele à parede. O apartamento inteiro estremeceu. Um grito silencioso percorreu a rede e, por um breve instante, vi a verdade: meu pai não era um vilão, mas o primeiro de uma linhagem de sacrifícios. Ao cortar a conexão, o protocolo de segurança letal foi ativado. O prédio começou a ser 'apagado' digitalmente; as paredes perdiam o contorno, os móveis dissolvendo-se em estática.
Carreguei Beatriz escadarias abaixo. O ar estava denso, impregnado pelo cheiro de concreto úmido e eletricidade estática. Cada andar que deixávamos para trás era literalmente desprovido de cor, como se a realidade estivesse sendo deletada do servidor central. O som de botas táticas ecoou abaixo. A polícia digital não precisava de mandados; eles operavam na frequência da negação.
— Vamos, Bia. Por favor — murmurei, alcançando o saguão.
Usei a chave de descriptografia que roubara no metrô, injetando um código de erro no sistema de vigilância. A distração funcionou; as luzes de rastreamento oscilaram, permitindo que eu saísse para a chuva gelada de São Paulo. Mas, ao pisar na calçada, o horror se concretizou: a cidade estava estranhamente vazia, alterada. As pessoas passavam por mim com olhares vítreos, sem qualquer memória da transmissão ou da farsa que eu acabara de expor.
Tentei abordar um homem na Avenida Paulista, segurando-o pelo braço.
— Vocês viram. A live. O servidor... vocês têm que lembrar!
O homem me empurrou com desprezo. — Solta, cara. Tá louco?
Recuei, sentindo o vazio gelado no estômago. Eu era o último ponto de falha. A única testemunha viva de que a relíquia não era um mito, mas um parasita que se alimentava da negação alheia. Minha mão, trêmula, mergulhou no bolso. O smartphone vibrou com uma notificação de um sistema que eu não instalei. Uma nova contagem regressiva brilhou na tela, implacável: 06:00:00. O relógio para o próximo colapso tinha começado.