Novel

Chapter 10: O Último Frame

Lucas consegue transmitir as provas da farsa da relíquia, mas o público rejeita a verdade em favor da mentira confortável. O sistema, alimentado pela crença coletiva, reseta o contador, isolando Lucas como o único guardião da tragédia enquanto a polícia digital cerca o prédio.

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O Último Frame

O zumbido no apartamento 402 não era elétrico; era uma frequência orgânica que fazia os dentes de Lucas vibrarem. Conectado por cabos de fibra ótica que pareciam raízes invasoras, ele sentia o sistema drenando suas sinapses. O contador no monitor de parede marcava dez minutos. Cada segundo era uma facada de estática em seu córtex pré-frontal.

— Solte, Lucas. Você não é a interface — a voz de seu pai, destilada em tons digitais distorcidos, ecoava dentro de sua mente. — Você é apenas o hospedeiro que vai apagar a si mesmo.

Lucas forçou os olhos, ignorando a náusea. O cômodo estava mergulhado na penumbra úmida de São Paulo; a chuva batia contra o vidro rachado como se quisesse lavar o pecado acumulado naquele cubículo. Seus dedos, trêmulos, digitavam o código de substituição no terminal improvisado. Beatriz estava caída ao lado da estante, pálida, com o pulso fraco. Ela era o custo de sua sobrevivência, e ele não aceitaria ser o coveiro dela.

Ao forçar a entrada no núcleo, uma memória — o cheiro de café na cozinha daquele mesmo prédio, a voz de sua mãe — foi varrida, substituída por um erro de execução. A dor foi absoluta. Ele perdeu o nome do primeiro cachorro que teve. Depois, a cor da parede de seu quarto de criança. O sistema não estava apenas transmitindo; estava consumindo o hospedeiro para preencher os buracos da farsa.

No corredor, o som de botas táticas contra o granito gasto do prédio ecoou como um aviso fúnebre. A Corrente havia chegado. Beatriz, recuperando um fiapo de consciência, arrastou-se até o painel de controle do sistema de segurança. Seus dedos, marcados por cortes de vidro, digitaram a sequência de override que seu avô lhe ensinara. O objetivo não era apenas bloquear a porta; era isolar o apartamento em uma redoma de interferência eletromagnética.

— Vamos, seu desgraçado — sibilou ela, enquanto o contador de cinco minutos brilhava em vermelho neon. O impacto das coronhadas contra a porta blindada fez o prédio inteiro tremer. Beatriz sentiu a pressão da Corrente tentando hackear a fechadura, uma disputa de força bruta contra a lógica do artefato.

O upload atingiu cem por cento no exato momento em que o servidor soltou um chiado metálico de agonia. A tela do tablet, antes um poço de códigos obscuros, agora exibia o feed global: a farsa da relíquia sendo substituída. O rosto de seu pai desaparecia enquanto os arquivos brutos — a prova da manipulação, os registros de pagamento e a estrutura da rede — inundavam os dispositivos de milhões de paulistanos. A verdade estava na palma da mão de cada cidadão.

Lucas se soltou dos cabos, caindo de joelhos. O silêncio que se seguiu foi pior que o zumbido. Ele pegou seu smartphone, esperando o caos, a indignação, o colapso da narrativa oficial. Em vez disso, o que viu foi uma indiferença gelada. As hashtags sobre a revelação subiam, mas eram rapidamente afogadas por uma avalanche de memes, ataques pessoais contra ele e uma onda de negação coletiva. O público não queria a verdade; ela era cara demais, dolorosa demais. Eles preferiam a mentira confortável da relíquia.

— Eles não estão acreditando — murmurou Lucas, a voz rouca. — Eles estão deletando a verdade.

Beatriz olhou para o monitor. O contador, que deveria ter parado, reiniciou. Doze horas. O sistema não era tecnológico; era social. A relíquia se alimentava da necessidade humana de acreditar em algo maior que a miséria do cotidiano. Enquanto o prédio era cercado pela polícia digital e o som de vidros quebrando subia do térreo, Lucas percebeu que a missão falhara. Ele expusera a farsa, mas a farsa era o que mantinha a cidade viva. O contador voltou a descer, implacável, enquanto a memória do que ele acabara de revelar começava a se dissolver na consciência coletiva, como se a realidade estivesse sendo formatada em tempo real.

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