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Chapter 2: O Custo do Acesso

Lucas busca Beatriz para obter a chave de descriptografia da relíquia. Ela exige que ele apague um registro de dívida de sua família de um servidor de segurança privada. Lucas cumpre a tarefa, mas deixa um rastro digital que dispara um rastreamento de IP em tempo real pela polícia digital, encurtando drasticamente seu tempo de sobrevivência.

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O Custo do Acesso

O zumbido da ventoinha do meu computador não era mais um ruído de fundo; era a contagem regressiva para a minha irrelevância — ou para a minha morte. Na tela, o contador digital, um parasita que se instalara no meu kernel, marcava 04:12. A cada segundo, a umidade de São Paulo parecia condensar-se dentro do meu gabinete, transformando o ar do apartamento em um vapor metálico e sufocante.

Eu não estava apenas investigando um desaparecimento; eu estava sendo digerido por um sistema que não aceitava testemunhas. Tentei isolar os logs daquela live, mas a rede de contenção era agressiva. Cada comando que eu digitava disparava uma contra-resposta: janelas de erro que piscavam em um azul gélido, o mesmo tom que refletia no meu rosto exausto.

— Vamos, seu desgraçado — sibilou minha voz, rouca. Meus dedos, travados sobre o teclado mecânico, não tremiam por medo, mas por pura adrenalina. Eu precisava de uma chave de descriptografia que não existia no mercado comum. Eu precisava de Beatriz.

*

A Galeria Aura, no centro histórico, era um mausoléu de luxo decadente. A chuva lá fora transformava a fuligem das fachadas em uma pasta viscosa que grudava nas minhas botas. O neon sobre uma escultura de metal retorcido piscava em um ritmo agônico, iluminando o rosto de Beatriz quando ela emergiu das sombras do segundo andar. Ela não parecia uma arquivista; parecia uma sentinela de um segredo que não podia ser enterrado.

— Você não deveria ter vindo, Lucas — disse ela. A voz era cortante, sem o calor que eu esperava de uma aliada.

Eu não recuei. Estendi meu celular, exibindo o contador que agora pulsava em sincronia com o meu próprio pulso.

— O influenciador sumiu no ar. A live foi digerida, Beatriz. E o contador agora está instalado no meu sistema. Preciso dos logs de acesso daquela noite. Libere o acesso.

Ela soltou uma risada seca, um som que não alcançou seus olhos.

— O que você baixou não é um arquivo, Lucas. É uma sentença. A rede familiar que você quer acessar não é pública. E o preço para tocar nela não é dinheiro. É a sua vida como você a conhece.

— Qual é o preço? — perguntei, sentindo o relógio no meu pulso vibrar. O contador no celular caiu para 03:15.

— Existe um registro de dívida digital em um servidor de uma empresa de segurança privada. Eles protegem o espólio. Se você apagar o rastro da minha família, eu te dou a chave. Mas saiba: eles não perdoam intrusão. Se você falhar, eles não vão apenas deletar seus arquivos; eles vão deletar você.

*

Dez minutos depois, eu estava em um café 24 horas, a chuva batendo contra a vitrine como código Morse. O servidor da empresa de segurança era uma fortaleza que eu mesmo ajudara a projetar anos atrás. A ironia era um gosto amargo na minha boca.

Meus dedos voavam. Contornei firewalls, desativei protocolos de segurança, mas cada passo custava tempo. O contador na tela da relíquia, espelhado em meu sistema, caía para 02:45. O servidor reagiu. Janelas de erro saltaram, exigindo autenticações que eu não possuía. O medo não vinha da multidão ao redor, mas da precisão com que o sistema rastreava cada byte que eu enviava.

Consegui a chave, mas no momento em que os dados foram transferidos, um alerta de intrusão de alto nível brilhou em vermelho sangue na tela. Eu havia deixado uma assinatura digital, uma marca inconfundível que me ligava diretamente ao servidor. O sistema não estava apenas me bloqueando; ele estava me caçando.

*

Voltei à galeria, mas o ar ali estava mais denso. Beatriz não olhava para mim; mantinha as mãos nos bolsos, os olhos fixos na chuva que lavava a fachada.

— Você não entende, Lucas — disse ela, a voz mal subindo acima do zumbido do ar-condicionado. — O log que você deletou era uma âncora. Agora que você a soltou, a corrente está vindo buscar quem a segurava.

Meu celular vibrou com uma violência ininterrupta. Uma notificação de segurança, um alerta de intrusão forçada em meu IP pessoal, explodiu na tela. Localização detectada. Contenção em curso.

O rastreamento era real. A polícia digital, aquela que operava nas sombras das operadoras, acabara de marcar meu nome. Beatriz se virou, uma resignação gélida no olhar. Ela deu um passo para trás, deixando-me ali, exposto sob o brilho do neon, enquanto o contador no celular atingia uma marca crítica. Lucas estava isolado, marcado, e o tempo havia acabado de se tornar um luxo que eu não podia mais pagar.

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