Novel

Chapter 1: O Relógio na Tela Azul

Lucas, um caçador de fraudes, presencia o desaparecimento inexplicável de um influenciador durante uma live. Ao baixar o arquivo bruto, ele descobre um contador sincronizado com seu próprio sistema, tornando-se o novo alvo de uma rede de contenção digital.

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O Relógio na Tela Azul

A chuva de São Paulo não caía; ela se acumulava contra o vidro da janela como um peso morto, transformando as luzes da Avenida Paulista em borrões de neon distorcidos. Lucas ajustou o foco da câmera de captura, o brilho azulado do monitor refletindo o cansaço em seus olhos. À sua frente, a live de Elias Thorne — um charlatão de redes sociais que prometia “limpeza energética” por pix — atingia o pico de audiência da noite.

“Última chance, Thorne,” murmurou Lucas. Seus dedos sobre o teclado mecânico estavam prontos. Ele já tinha os logs de pagamento e a prova de que o cenário de Thorne era um estúdio alugado no Brás. Na tela, o influenciador segurava um artefato de bronze, uma peça circular coberta por inscrições que pareciam se mover sob a luz precária. Thorne suava, os olhos perdidos, a voz trêmula de uma forma que, pela primeira vez em anos de carreira, não parecia atuação.

— O tempo não é um ciclo — dizia Thorne, o tom desprovido da costumeira arrogância. — É um débito.

Lucas soltou uma risada seca, movendo o cursor para o software de edição. Mas, antes que pudesse iniciar o corte, algo mudou. O artefato brilhou com uma frequência que fez o software de captura oscilar. Um contador digital, fino como um fio de luz, surgiu sobreposto à imagem da relíquia: 00:02:14.

Lucas congelou. O contador não era um efeito de sobreposição; era uma anomalia de renderização que parecia corroer a própria estrutura do vídeo. De repente, a live explodiu em estática digital. O influenciador simplesmente desapareceu da cadeira, deixando para trás apenas uma sombra distorcida e um silêncio que parecia vibrar nos alto-falantes antes de cortar para o erro de servidor.

— Não desapareça agora, seu bastardo — sibilou Lucas.

Ele correu para salvar o arquivo bruto. O servidor de origem estava sendo purgado. Linhas de código em vermelho escarlate invadiram seu terminal, uma tentativa agressiva de censura algorítmica. O computador de Lucas gemeu, a ventoinha girando no limite da exaustão. Não era apenas um administrador deletando um vídeo; era uma rede de contenção. Ao encapsular o log, uma notificação saltou na tela: Acesso negado. Localização exposta.

Seu coração disparou. Ele tinha a prova, mas o custo era imediato: o bloqueio de suas contas bancárias e um alerta de invasão de IP que não vinha de um provedor comum. O relógio no canto da tela, sincronizado com o arquivo, marcava 00:41:12 e decaía com uma precisão cirúrgica.

Lucas disparou uma mensagem criptografada para Beatriz, anexando o frame da relíquia. Ela era a única com o acervo necessário para identificar aquilo, mas a resposta chegou em segundos, gélida:

“Apague isso. Se você abriu o arquivo, já está marcado. Não me procure mais.”

Lucas bufou, o cinismo habitual lutando contra o nó em seu estômago. Ele não acreditava em maldições, apenas em sistemas que podiam ser hackeados.

“É uma fraude, Beatriz. O contador está sincronizado com o meu relógio interno. Como isso é possível?”

Ele enviou a mensagem, mas o cursor travou. Um novo código começou a rodar em seu terminal, sobrepondo-se ao sistema operacional. O relógio na tela, antes em 41 minutos, saltou para 00:05:00. O IP de Lucas foi rastreado em tempo real, e um novo alerta de segurança, emitido por uma agência que ele não conseguia identificar, começou a emitir um sinal sonoro estridente. Ele não estava mais apenas investigando; ele era o próximo alvo da contagem.

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