Dados de Sangue
O cronômetro no visor de Kaelen pulsava em um vermelho visceral: 22 horas e 14 minutos. O prazo da dívida de sua família, encurtado por um decreto arbitrário de Valéria, não era apenas um número financeiro; era a lâmina de uma guilhotina suspensa sobre o pescoço de sua mãe. Ele não podia treinar no pátio público, sob os olhares vigilantes da elite que catalogavam cada milissegundo de sua performance. Ele precisava de dados de combate de alto nível, e o Setor 7 — a Arena de Elite — era o único lugar onde o Módulo Sincronia poderia colher o que precisava para se estabilizar.
Kaelen deslizou pelas sombras da galeria superior, seus pés mal tocando as passarelas metálicas. O Módulo, encravado rudemente na coluna vertebral de seu frame, emitia um zumbido sibilante, uma frequência que drenava a energia do seu novo núcleo de resfriamento. Ao alcançar o terminal de manutenção externa, ele conectou o cabo de interface. O Módulo reagiu com uma voracidade selvagem. Em vez de apenas copiar os logs, a interface brilhou com uma luz azul gélida, invadindo os protocolos de segurança da Academia. Por um milissegundo, a rede ficou nua. Kaelen viu o que não deveria: a contabilidade oculta da Academia, onde a dívida de sua família não era um passivo, mas um ativo, um instrumento de controle operado diretamente pela linhagem de Valéria.
O ar na arena tornou-se denso, carregado com o cheiro acre de ozônio. O sistema de defesa, alertado pela intrusão, despertou. "Intruso detectado. Setor 4. Protocolo de eliminação ativado." Antes que Kaelen pudesse se desconectar, um drone de patrulha girou, seu canhão de pulso carregando com um zumbido de alta frequência. Kaelen forçou a conexão com o Módulo, sentindo a interface neural queimar sua têmpora. O mundo ao redor perdeu a cor, transformando-se em uma grade de dados. O Módulo não apenas previu o disparo do drone; ele forçou um override no sistema central por um microssegundo, permitindo que Kaelen deslizasse por entre os feixes de luz como um fantasma na máquina. Ele escapou por um duto de ventilação, mas sua assinatura digital agora estava cravada nos servidores da Academia.
De volta à oficina, Kaelen arrombou a porta, o suor frio escorrendo pela nuca. Mestre Aris não levantou os olhos da bancada, mas a tensão em seus ombros era um grito de aviso.
— Você foi longe demais, moleque — sibilou Aris, bloqueando o caminho com uma ferramenta eletrificada. — Entregue isso. Se a diretoria souber que você extraiu os logs da elite, sua execução será pública.
— Eu vi, Aris! Eles não estão treinando soldados; estão drenando nossa energia para alimentar os Mechs da Valéria — Kaelen retrucou, o peito arfante.
Aris avançou, o desespero nublando seu olhar. — Você não entende! Isso não é um registro, é a chave para o sistema central. Se você ficar com isso, não vão apenas matar você; vão apagar sua existência.
Antes que pudessem discutir, as sirenes de lockdown cortaram o ar. A porta deslizante foi forçada. Valéria entrou, os olhos brilhando com a lumiscência fria de um implante de classe A. Ela não portava armas, mas sua postura era uma ameaça tática absoluta.
— O sistema registrou uma anomalia na arena — ela disse, a voz cortante como lâmina. — Sei que não foi sorte, Kaelen. O que você roubou?
Kaelen girou a cadeira, revelando o gráfico de transações financeiras na tela principal. — Eu li os registros da sua dívida, Valéria. Interessante como o déficit da sua família desapareceu exatamente após o "acidente" do meu mentor.
O rosto de Valéria empalideceu. O silêncio na oficina tornou-se opressor. Ela deu um passo à frente, mas Kaelen ampliou o protocolo de assinatura digital.
— A diretoria sabe que você subornou o supervisor de manutenção? — Kaelen desafiou. Valéria recuou, mas o brilho em seus olhos prometia uma guerra letal. Ela saiu, deixando um vácuo de tensão mortal. Aris olhou para o Módulo, o rosto envelhecido por uma verdade que ele tentou esconder por anos.
— Kaelen — Aris sussurrou, a voz trêmula. — O que você viu é apenas a ponta do iceberg. O protótipo que você carrega... ele não está completo. Ele é apenas a peça de um sistema de controle muito maior, e a Academia não vai parar até que ele — ou você — seja reduzido a sucata.