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Chapter 4: O Custo da Proteção

Ricardo enfrenta a pressão dos sócios para descartar Elena, sacrificando capital político para mantê-la. Em casa, a tensão entre eles aumenta quando Elena descobre, através de arquivos confidenciais, que Ricardo a vigiava muito antes do gala, revelando que o 'resgate' foi uma manobra calculada.

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O Custo da Proteção

O escritório de Ricardo na Lane Corp era uma caixa de vidro temperado suspensa sobre as luzes frias de São Paulo, um aquário de silêncio cortante. Ricardo mantinha as mãos espalmadas sobre o mogno, os nós dos dedos brancos, encarando os três sócios que ocupavam as poltronas de couro. O ar parecia rarefeito, saturado pela eletricidade do prejuízo iminente.

— Você perdeu a sanidade, Ricardo? — Otávio, o decano do conselho, levantou-se com a lentidão de um predador. — A família Lane não está comprando nossa dívida por capricho. Eles querem a fusão, e eles querem a noiva original. Essa garota que você apresentou no gala é um passivo que não podemos sustentar. Se você a descartar agora, o contrato é nosso. Se insistir, a Lane Corp terá meses de instabilidade acionária.

Ricardo sentiu o peso da chave que Elena guardava em sua bolsa, uma presença metálica que pulsava como uma contagem regressiva em sua mente. Ele sabia exatamente quem ela era, e o quanto a família dela havia roubado.

— Ela não é uma aposta — Ricardo respondeu, a voz equilibrada no fio da navalha. — Ela é minha noiva. O acordo será feito nos meus termos ou não será feito. — Ele empurrou a pasta com os termos da fusão de volta para o centro da mesa, um gesto de encerramento. — Podem se retirar.

O silêncio que se seguiu foi o som de milhões de reais evaporando. Ao ficar sozinho, Ricardo sentiu o peso do prejuízo financeiro, mas também uma convicção estranha: Elena agora era a única peça no tabuleiro que ele não estava disposto a sacrificar.

Ao retornar ao seu apartamento, Ricardo não conseguiu esconder a fadiga. Um corte profundo no braço, fruto de um empurrão brutal dos seguranças de seu próprio pai na saída do gala, latejava sob a seda da camisa. Elena o esperava na sala, a chave metálica escondida na palma da mão, observando a palidez dele com uma intensidade que ele não conseguia decifrar.

— Você sangrou por causa de um contrato — ela disse, a voz firme, embora seus olhos traíssem a preocupação ao notar a mancha escura na manga dele. — A família Lane não vai parar por um arranhão. Eles compraram a dívida para nos forçar ao erro.

Ricardo soltou um riso seco e jogou as chaves sobre a mesa de mármore. Ele se aproximou, invadindo o espaço pessoal de Elena, a figura imponente preenchendo o ambiente. — Eu não sangrei pelo contrato, Elena. Sangrei porque eles tentaram tirar você daquele carro como se você fosse uma mercadoria. O contrato é apenas o papel que me dá o direito legal de proteger o que é meu.

Elena se aproximou, o toque de seus dedos ao limpar o sangue de seu braço sendo um contraste perturbador com a frieza de seus olhos. Ela sentiu o calor dele, uma proximidade que exigia uma resposta, mas sua mente estava em outro lugar. Ela percebeu, através de um desabafo descuidado de Ricardo sobre os registros da empresa, que ele não a resgatara por acaso. Ele sabia o que estava escondido no cofre. Ela recuou, a gratidão dando lugar a uma vigilância gélida.

Horas depois, com Ricardo finalmente adormecido no sofá, Elena deslizou pelo escritório privado dele. O terminal de dados emitia um brilho azulado, convidativo e perigoso. Ela inseriu a chave encontrada no forro de seu vestido. O sistema emitiu um bipe baixo, desbloqueando arquivos que deveriam ter sido enterrados há anos — o histórico completo das transações que a família dela apagou quando a declararam inexistente.

Seus olhos percorreram as linhas de código com a voracidade de quem finalmente encontrava a arma que procurava. Mas, ao abrir uma pasta rotulada com seu próprio nome, o sangue de Elena gelou. Eram relatórios de vigilância datados de meses antes do gala. Ricardo a observava há muito tempo. O 'resgate' não fora um ato de cavalheirismo, mas uma manobra de xadrez calculada. Elena fechou o terminal, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ricardo era um aliado, sim, mas ele era um jogador que conhecia cada carta de sua mão antes mesmo dela as jogar.

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