Chapter 11
O café da manhã na cobertura de Arthur Valente não era uma refeição; era uma negociação de sobrevivência sob a mira de um relógio invisível. Faltavam quarenta e oito horas para a reunião de acionistas. O silêncio no ambiente era denso, carregado pelo tique-taque de uma contagem regressiva que ameaçava desmantelar o império. Arthur, impecável em seu costume sob medida, mantinha os olhos fixos na tela de seu tablet. Os gráficos de queda das ações da holding Valente desenhavam uma trajetória de colapso que ele, o homem que sempre controlou todas as variáveis, não conseguia mais deter sozinho.
— O conselho não aceitará apenas a minha presença como fachada — Beatriz quebrou o silêncio, a voz firme, cortando a rigidez do ambiente. Ela empurrou o prato intocado para o lado, observando o reflexo de Arthur no vidro fumê da mesa. — Eles precisam de algo mais do que uma noiva decorativa. Eles precisam ver que o aditivo contratual não foi um capricho, mas uma consolidação de poder. Se eu vou ser o seu escudo, Arthur, o conselho precisa ver que eu seguro a espada.
Arthur levantou o olhar. A frieza habitual de seus olhos, aquela barreira que ele erguia contra o mundo, vacilou, revelando uma sombra de dependência desesperada. Ele não era mais o predador absoluto; era um homem acuado por seus próprios segredos.
— Você quer ser o escudo, Beatriz? — Arthur inclinou-se para frente, a voz baixa, carregada de uma eletricidade perigosa. — O preço de ser o escudo é que, quando as flechas vierem, elas atingirão você primeiro. Helena correu porque sabia que o que estava por baixo do império não era apenas dinheiro, era uma teia de responsabilidades da qual ela não podia escapar. Você está cavando sua própria cova ao se sentar nessa cadeira.
— Eu já estou na cova, Arthur. Você me colocou aqui meses antes de Helena fugir — Beatriz retrucou, o desafio brilhando em seu olhar. Ela não era mais a substituta descartável, e a percepção disso mudou a dinâmica na sala. — A diferença é que, agora, eu detenho o controle acionário. Se você cair, eu caio, mas o seu legado morre comigo.
Arthur se levantou, caminhando até a janela de vidro que dava para a cidade de São Paulo. Ele parecia um rei cujas muralhas estavam sendo sitiadas por dentro. O "Projeto Substituição", que outrora fora sua carta na manga, agora era a corrente que os prendia um ao outro.
— O conselho está pressionando por uma declaração conjunta — ele disse, sem se virar. A voz dele, desprovida de qualquer calor, revelava a urgência de quem sentia o solo ceder. — Eles querem saber por que você, Beatriz, é a única que mantém o controle das ações que deveriam estar com Helena.
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas. O risco era real, um precipício financeiro que poderia levar anos para ser superado. Ela caminhou até a mesa de mogno, deslizando o tablet com as provas do 'Projeto Substituição' para o centro. As planilhas, outrora apenas números, agora revelavam a arquitetura de uma armadilha que ela mesma ajudara a consolidar.
— Se eu assinar a transferência de poder agora, a falência é evitada, mas eu perco a minha única alavanca de negociação — ela argumentou, a voz cortante. — O que Helena descobriu, Arthur? Por que ela preferiu a desonra pública à sua proteção?
Antes que ele pudesse responder, o som de passos firmes ecoou pelo corredor. O 'Enforcer', o executor de confiança de Arthur, surgiu na entrada com uma expressão que não trazia boas notícias. A tensão no ar tornou-se insuportável. Arthur olhou para Beatriz, uma centelha de algo que não era apenas necessidade passando por seu olhar. Era proteção, uma forma distorcida e possessiva de cuidado que custava caro a ambos.
— Se você sair por aquela porta agora, Beatriz, a cláusula de rescisão protegerá sua família da liquidação, mas o império desmoronará em horas — Arthur disse, a voz quase um sussurro rouco. — O custo será meu. Você estará livre, mas será uma fugitiva para sempre.
Beatriz olhou para a porta, depois para a mesa onde o futuro da holding Valente repousava em suas mãos. Ela percebeu, com um impacto que lhe tirou o fôlego, que a fuga não era mais uma opção. Sua autonomia estava intrinsecamente ligada à sobrevivência dele, e Arthur, o homem que a usara como peça de xadrez, agora dependia de cada movimento seu para não ser destruído. A armadilha estava completa, e ela era a única que segurava a chave.