Chapter 6
O café da manhã na cobertura de Arthur Valente não era uma refeição; era uma negociação de ativos disfarçada de cortesia. O mármore nero marquina da mesa parecia absorver a luz da manhã, deixando o ambiente em uma penumbra fria, pontuada apenas pelo tilintar metálico da prataria contra a porcelana fina. Beatriz observava o reflexo de Arthur no vidro da janela que dava para a metrópole de São Paulo. Ele parecia imperturbável, o terno impecável, a postura de quem nunca conheceu a derrota, mas a forma como seus dedos pressionavam o guardanapo de linho revelava uma tensão que ele tentava, inutilmente, esconder.
— Você ainda não tocou no seu café — Arthur murmurou, sem desviar o olhar do tablet onde as cotações da holding oscilavam em um ritmo frenético. — A hesitação é um luxo que não podemos nos permitir, Beatriz. Cada minuto que você passa analisando esses documentos é um minuto a mais de risco para nós dois.
Beatriz sentiu o peso da pasta de couro escondida sob a mesa, encostada em sua coxa. As provas da fraude — os extratos que ligavam o nome de Arthur a movimentações ilícitas que Helena descobrira antes de fugir — queimavam como carvão em brasa. Ela não era mais apenas uma noiva; era a sentinela de uma ruína que ela mesma ajudara a consolidar ao assinar aquele aditivo contratual.
— O risco é apenas meu, Arthur — ela retrucou, mantendo a voz firme, apesar da pulsação acelerada em suas têmporas. — Você se certificou disso quando me tornou legalmente cúmplice. A pergunta não é se eu hesito, mas por que você ainda permite que eu mantenha essas evidências em mãos. O que você ganha com minha proximidade?
Arthur finalmente levantou os olhos. O azul gélido de seu olhar encontrou o dela, carregado de uma intensidade que a fez recuar internamente. Ele se levantou, aproximando-se lentamente, o movimento carregado de uma eletricidade que obrigou Beatriz a se manter firme na cadeira. Ele parou a centímetros dela, o aroma de sândalo e poder envolvendo-a.
— Você acha que isso é sobre controle, sobre ter um peão no tabuleiro — ele murmurou, a voz descendo uma oitava, mais rouca. — Mas você é a única variável que eu não consegui prever. Se eu quisesse destruir as provas, elas já teriam sido queimadas. O fato de estarem aí, sob sua posse, é a única coisa que me mantém ancorado nesta farsa.
Beatriz sentiu o fôlego falhar. A proteção que ele oferecia, antes vista como uma jaula, ganhava agora um contorno perigoso. Ela não era apenas uma peça; era alguém que ele temia perder — não pelo contrato, mas pelo que a presença dela despertava em sua estrutura de ferro.
— Você não me odeia — ela percebeu, a constatação saindo como um sussurro no silêncio da sala. — Você tem medo. Medo do que acontece se a fachada cair e você não tiver mais a minha cumplicidade como desculpa para me manter perto.
Arthur não negou. Ele estendeu a mão, hesitando um milésimo de segundo antes de tocar o rosto dela, um gesto que custava mais caro do que qualquer transação financeira. O toque era um reconhecimento de que, naquele jogo de poder, ele acabara de entregar a ela a única peça que faltava para virar o tabuleiro. Beatriz olhou para a porta, para a liberdade que a esperava lá fora, e depois para Arthur. Ela sabia o que precisava fazer. A decisão de desafiar a autoridade dele não era mais uma possibilidade; era a única saída.