O Preço da Elegância
O salão de baile do Hotel Unique, em São Paulo, era uma arena de gladiadores vestindo seda e diamantes. Elena sentia cada olhar como uma lâmina fria deslizando por suas costas. O colar de safiras em seu pescoço — o último remanescente da fortuna de sua família — pesava como uma âncora, mantendo-a presa à superfície enquanto o naufrágio financeiro de seu pai a puxava para o fundo.
— Soube que a mansão dos Vasconcelos foi a leilão ontem, Elena. É verdade que você está morando em um flat de serviço na Zona Sul? — A voz de Marina, carregada com a falsa empatia da elite paulistana, cortou o ar. Ao redor, outras mulheres da alta sociedade se aproximaram, ávidas por detalhes da queda de quem um dia fora o centro de suas atenções.
Elena manteve a espinha rígida, o queixo erguido. O desespero era uma fera faminta em seu estômago, mas ela não lhe daria o prazer de vê-la devorá-la em público.
— A vida é feita de ciclos, Marina. Alguns preferem investir em ativos imóveis, outros em discrição. Eu escolhi a segunda opção — respondeu Elena, com uma calma que não sentia. O brilho de escárnio nos olhos delas era inegável. Antes que pudesse formular uma desculpa para se retirar, o burburinho no salão mudou de tom. A ausência da noiva de Arthur, Beatriz, tornara-se o assunto principal. Elena aproveitou a distração para escapar em direção ao terraço.
O terraço privativo do Clube Harmonia era um santuário de mármore e silêncio. O ar noturno de São Paulo trazia o cheiro de ozônio e poluição, mas, para Elena, era o oxigênio necessário para não sufocar. Ela ajustou a alça do vestido, sentindo o peso do colar — o último vestígio de uma linhagem que, em poucas horas, deixaria de existir nos registros de crédito da cidade.
— O ar aqui fora é menos rarefeito, mas a queda é a mesma, não é, Elena? — A voz de Arthur cortou a penumbra. Ele não se aproximou, mantendo-se como uma sombra recortada contra as luzes da Marginal Pinheiros. O cheiro de sândalo e poder corporativo o precedia.
Elena não se virou.
— Veio para confirmar se a carniça ainda está fresca, Arthur? Ou a sua noiva fugiu rápido demais para você conseguir a manchete que queria? — Ela disparou, virando-se para enfrentá-lo. O escândalo da ausência de Beatriz era o único escudo que ela tinha, e ele sabia disso.
Arthur deu um passo à frente. Seus olhos, de um azul gélido e analítico, não buscavam compaixão; eles esquadrinhavam o valor de mercado de Elena.
— Beatriz não fugiu por acaso. Ela foi uma variável prevista. O que eu não previ foi a conveniência de encontrar você, desamparada e desesperada, exatamente no momento em que preciso de uma substituta que saiba como usar um sobrenome com elegância.
Ele a conduziu para uma sala de reuniões anexa, onde o cheiro de mogno polido e papéis contratuais a atingiu como um soco. Arthur não se sentou. Com um gesto preciso, ele deslizou um documento sobre a mesa. O papel parecia uma sentença de morte.
— A noiva não virá — disse ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — Ela fugiu com o motorista há exatos quarenta minutos. O escândalo vai estourar assim que o primeiro repórter notar que o buquê está solitário no altar improvisado. Se a união não for selada, o banco executará as garantias dos empréstimos fantasmas do seu pai. Você perderá a casa, o nome e a liberdade.
Elena sentiu o sangue fugir de seu rosto. As dívidas de seu pai, os contratos predatórios que ela ignorara até ser tarde demais... tudo estava ali, naquelas páginas.
— Você sabia — ela sussurrou, a voz falhando apenas por um segundo. — Você a deixou fugir para me encurralar.
Arthur aproximou-se, invadindo seu espaço pessoal. Ele era uma muralha de autoridade e frieza. Ao sussurrar no ouvido dela, sua voz era uma promessa perigosa:
— Você entra no altar como minha noiva ou sai daqui algemada por fraude. A escolha é sua, Elena, mas o tempo esgotou.