A Herança de Vidro
O silêncio na cobertura de Enzo não era paz; era uma pressão barométrica que fazia os ouvidos latejarem. Ele serviu um uísque com a precisão de um cirurgião, o gelo tilintando contra o cristal como uma contagem regressiva. Beatriz, ainda envolta no vestido de seda que a transformara em troféu durante o evento beneficente, observava o reflexo dele no vidro da janela. O homem que a protegera de um escândalo público horas antes era o mesmo que, décadas atrás, assinara a sentença de morte financeira de sua família.
— Você foi impecável — Enzo disse, sem se virar. A voz era um veludo que escondia navalhas. — A rival está fora do jogo, e a imprensa comprou a narrativa do casal perfeito. Você aprendeu rápido, Beatriz.
— A necessidade é uma professora eficiente — ela respondeu, mantendo a voz neutra. A dignidade era sua única armadura, e ela não a deixaria cair por um elogio calculado.
Quando ele se aproximou, o perfume de sândalo e poder parecia sufocante. Ele tocou o ombro dela, um gesto que, para qualquer observador, pareceria afeto. Para Beatriz, era uma demarcação de território. Ela sentiu o peso do pendrive escondido na clutch, contendo os documentos que ligavam o pai de Enzo à liquidação forçada do espólio de seu avô. Aquele homem não era apenas seu noivo de fachada; ele era o herdeiro de seu algoz.
Assim que ele se retirou para o escritório, Beatriz não perdeu tempo. O leilão dos ativos da família estava marcado para segunda-feira; ela tinha menos de cinco dias para transformar aquela prova em uma alavanca de poder. Ela deslizou pelo corredor, a respiração contida. O escritório de Enzo era um santuário de mogno e segredos. Seus dedos, ágeis e treinados na etiqueta da alta sociedade, contornaram a segurança biométrica. O servidor privado abriu-se, revelando o arquivo "Legado".
Não eram apenas números. Eram atas de reuniões, ordens de despejo assinadas pelo pai de Enzo, e a prova de que o tio de Beatriz, Vítor, fora apenas um peão em uma conspiração maior. O império de Enzo não era apenas corporativo; era um monumento construído sobre as ruínas de sua linhagem.
— Revirando as gavetas do meu pai, Beatriz? — A voz de Enzo cortou o ar como um chicote. A porta do escritório estava entreaberta; ele a observava há minutos.
Beatriz não recuou. Ela se virou, sustentando o olhar dele, o pendrive já guardado na palma da mão.
— Seu pai não é o santo que você finge proteger. Ele é o arquiteto da minha miséria.
Enzo fechou a porta com um estrondo seco. Ele não parecia furioso; parecia exausto, uma vulnerabilidade que o tornava ainda mais perigoso. Ele se aproximou, prendendo-a contra a mesa de mogno.
— Você acha que eu o protejo? — Ele riu, um som desprovido de humor. — Este noivado, este anel, esta vida... é a minha coleira. Meu pai controla o conselho. Se eu não me casar com a herdeira que ele escolheu, ele apaga o legado da minha família. Eu sou um prisioneiro tanto quanto você.
O telefone de Enzo vibrou sobre a mesa. O nome do 'Enforcer' brilhava na tela. O jogo havia mudado.
— Ele sabe — Enzo murmurou, a calma voltando ao seu rosto. — O vazamento sobre o leilão não foi um acidente. Ele quer o projeto da sede, ou ele expõe que nosso noivado é uma farsa. Se isso acontecer, sua credibilidade morre antes de você salvar o que resta do seu avô.
Beatriz sentiu o peso do pendrive. Ela tinha a arma, mas o preço da revelação era a destruição da fachada que os mantinha vivos. Ela sorriu, um gesto frio e calculado.
— Se o noivado é uma farsa, vamos torná-la a peça mais cara da cidade — ela disse, a voz firme. — Eu não vou entregar o projeto. Eu vou usar a cláusula de reversão de bens que inseri no contrato. Se ele quer guerra, ele terá o escândalo que merece.
Enzo a olhou, e pela primeira vez, a indiferença profissional deu lugar a algo mais sombrio: respeito. Eles não eram mais noivos de fachada; eram aliados em uma guerra de sucessão, unidos pelo ódio comum ao homem que os controlava.