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Chapter 2: O Preço da Aparência

Beatriz e Enzo enfrentam o primeiro teste público em um evento beneficente. Enzo usa Beatriz como isca para desmascarar uma rival, consolidando sua proteção, mas Beatriz descobre documentos que provam que o império de Enzo foi construído sobre a ruína de sua própria família.

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O Preço da Aparência

O closet de Enzo não era um espaço de escolha; era uma vitrine de controle. As araras, carregadas de vestidos de alta costura em tons neutros, pareciam sentinelas vigiando a dignidade de Beatriz. Ela observava seu reflexo no espelho de corpo inteiro, a seda do vestido azul-noturno deslizando contra sua pele como uma armadura de gala. Atrás dela, Enzo verificava o relógio de pulso, um movimento mecânico que ecoava o tique-taque da contagem regressiva para o leilão dos ativos de sua família, marcado para a próxima segunda-feira.

— O colar de diamantes — ordenou Enzo, a voz destituída de qualquer calor. — A peça da família Lancaster. É o que o mercado espera ver hoje.

Beatriz não se moveu. Ela pegou um par de brincos de pérola simples sobre a bancada, ignorando a caixa de veludo aberta que continha a joia pesada. O silêncio no closet tornou-se denso, carregado pela eletricidade estática das negociações silenciosas que vinham travando desde a assinatura do contrato.

— O colar de diamantes evoca a imagem de uma noiva submissa, Enzo — disse Beatriz, mantendo a voz nivelada. — Se eu entrar naquele salão como um ativo decorativo, nossa aliança perde a credibilidade perante os acionistas. Eles não querem uma boneca; querem uma estrategista que saiba proteger o legado que você pretende herdar.

Enzo deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume amadeirado dele, misturado ao cheiro frio do ar condicionado, era sufocante. Ele não cedeu, mas seus olhos, escuros e impenetráveis, avaliaram a postura dela com uma curiosidade nova. Pela primeira vez, ele não viu apenas a noiva substituta; viu a negociadora. Ele assentiu uma única vez, um sinal de trégua temporária, e eles partiram.

O salão de festas no centro de São Paulo era um aquário de tubarões em trajes de gala. Assim que cruzaram a entrada, a pressão social recaiu sobre eles como um peso físico. Não demorou para que Helena, uma ex-aliada da família de Beatriz, aproximasse-se com um sorriso predatório.

— A audácia dos falidos não tem limites, não é, Beatriz? — A voz de Helena cortou o salão. Ela apontou a taça de champanhe para o vestido de Beatriz. — Todos sabem que seus pais perderam tudo. Você não passa de uma peça de liquidação que Enzo comprou para limpar o nome. Quanto ele pagou pelo seu silêncio?

Beatriz sentiu o sangue fugir do rosto, mas manteve a coluna ereta. O salão silenciou, os olhares ávidos esperando sua queda. Antes que ela pudesse responder, uma mão firme pousou em sua cintura, puxando-a para trás. O toque de Enzo era possessivo, eletrizante e brutalmente frio.

— Helena — a voz de Enzo ecoou pelo ambiente, desprovida de qualquer emoção. — É fascinante ver como você se preocupa com as finanças alheias enquanto a sua própria empresa é sustentada por fraudes que o meu departamento jurídico acaba de protocolar.

Ele deu um passo, forçando a mulher a recuar. O riso de Helena morreu. Enzo não a estava defendendo por afeto; ele a estava usando como isca para identificar quem eram seus verdadeiros inimigos, e o custo da proteção era uma dívida que Beatriz sentia crescer a cada segundo.

No carro, de volta à cobertura, a tensão explodiu. Beatriz encarou Enzo, que olhava pela janela com a indiferença de um estrategista que acabara de vencer uma partida.

— Você me usou como isca — ela disse, a voz cortante.

— Eu te dei exatamente o que você precisava: o silenciamento de quem tentava destruir sua reputação. A isca funcionou, Beatriz. Elas morderam.

Ele se inclinou, invadindo o espaço dela, e tocou seu pulso. O contato físico era uma cobrança silenciosa. — Você é minha noiva. Em público, sua imagem é meu patrimônio. Se você quer ser tratada como igual, comece a agir como a peça mais valiosa do tabuleiro.

Ao chegarem à cobertura, o silêncio era uma nova forma de tortura. Beatriz, ao se curvar para recuperar um grampo, viu um envelope pardo esquecido sob a mesa de centro. Ao abrir, o mundo parou. Não era um contrato; era o projeto original da sede da empresa, assinado por seu próprio pai, o homem que Enzo destruíra publicamente. O nome do arquiteto fora riscado, substituído pela assinatura do sogro de Enzo. O império que a protegia era, na verdade, o monumento erguido sobre as cinzas de sua família. Ela deslizou o documento para o fundo falso de sua bolsa, sentindo o peso da traição como uma arma. O jogo tinha acabado de mudar de mãos.

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