Intimidade sob Cerco
O sangue ainda tingia a renda do meu vestido, um detalhe minúsculo que parecia gritar contra a perfeição imaculada da mansão dos Albuquerque. Eu mal tinha fechado a porta do meu quarto quando o peso da descoberta — o 'Projeto Sombra' — começou a martelar minhas têmporas. Minha irmã não fugira por covardia; ela fora extraída. E Rafael, com seu controle absoluto e seus contratos de aquisição hostil, sabia de cada detalhe enquanto me mantinha como um peão no tabuleiro de uma guerra que eu sequer compreendia.
Um toque seco na madeira da porta me fez sobressaltar. Antes que eu pudesse responder, ele entrou. Rafael ocupou o espaço, seus olhos cinzentos varrendo o ambiente com a precisão de um caçador que já sabe onde a presa se esconde.
— Você estava no escritório — disse ele, a voz desprovida de qualquer inflexão, embora o subtexto fosse um aviso de tempestade. — E você se cortou.
Ele não perguntou. Ele constatou, caminhando em minha direção. Tentei esconder a mão ferida atrás das costas, mas ele foi mais rápido. O aperto de seus dedos ao redor do meu pulso não foi bruto, mas foi inegável. Ele puxou minha mão para a luz do abajur, revelando o corte irregular que eu fizera na borda metálica da gaveta secreta.
— Eu estava procurando por respostas que você insiste em me negar, Rafael — respondi, mantendo a voz firme, apesar da proximidade física que tornava o ar rarefeito.
— Respostas têm um preço que você ainda não pode pagar, Beatriz — ele retrucou, conduzindo-me para dentro do quarto e trancando a porta atrás de si. O som do trinco selou nossa intimidade forçada, transformando o quarto em uma cela de luxo.
Rafael não me soltou. Ele caminhou até a poltrona de veludo e me guiou para sentar. Com um movimento ágil, ele buscou um kit de primeiros socorros. O silêncio que se seguiu era denso, carregado pelo peso dos papéis que eu vira minutos antes. Ele se ajoelhou diante de mim, ignorando a hierarquia que ele mesmo impusera. Suas mãos, que costumavam assinar ordens de despejo e fusões hostis, moviam-se com uma precisão cirúrgica ao limpar o sangue.
— Por que o cuidado, Rafael? — perguntei, observando-o. — Você já tem o que queria. A empresa é dos Albuquerque. A família Vasconcelos é apenas um rastro de poeira nos seus livros contábeis.
Ele parou por um instante, o olhar fixo no meu corte.
— Se você for processada pelos crimes que sua irmã cometeu durante a extração, Beatriz, o escândalo destruirá qualquer valor que eu ainda possa extrair do seu nome. Sua sobrevivência é uma necessidade corporativa. — Ele levantou os olhos, e pela primeira vez, vi uma fresta na muralha. — Mas não se engane. Se eu a entregasse agora, você não duraria uma semana fora destes muros.
O toque dele, ao aplicar o curativo, prolongou-se mais do que o necessário. A dor física tornou-se um ruído distante, eclipsada por uma tensão sexual inegável que pairava entre nós como uma ameaça. Eu sabia que ele me usava, mas a proteção dele era a única coisa que me impedia de cair no abismo que o Projeto Sombra cavara para mim.
— Você não me mantém aqui apenas para proteger o seu investimento — sussurrei, desafiando-o. — Você me mantém aqui porque eu sou a única coisa que você não conseguiu controlar totalmente.
Rafael se levantou, a sombra de seu corpo projetando-se sobre a minha. Ele não negou. Antes que pudesse responder, o celular sobre a mesa de mogno vibrou com uma notificação urgente. Ele se afastou, deixando-me sozinha por um breve momento.
Oportunista, deslizei até o tablet que ele deixara sobre a mesa. O dispositivo estava desbloqueado. A notificação de e-mail saltou imediatamente: uma imagem anexada. Senti o sangue fugir do rosto ao abrir o arquivo. Era uma foto tirada de dentro da própria casa, mostrando-nos na biblioteca, horas antes. A legenda era um aviso de chantagem: alguém tinha acesso ao núcleo da fortaleza de Rafael.
O pânico ameaçou paralisá-la, mas antes que eu pudesse apagar a evidência, a porta se abriu. Rafael entrou, o olhar endurecendo ao perceber a mudança na minha postura e o tablet em minhas mãos. A farsa estava por um fio, e o perigo, agora, estava dentro de casa.