Bastidores de Poder
O silêncio na mansão Lacerda não era paz; era uma armadilha arquitetada em mármore e mogno. Eram 23h15. Beatriz observava o relógio de pulso no hall, o som de seus saltos abafado pelo tapete persa. Rafael estava em uma chamada corporativa no andar superior, o que lhe conferia uma janela de tempo perigosa, mas necessária. A narrativa de fuga voluntária de sua irmã nunca se sustentara; era uma peça de teatro mal ensaiada que Rafael mantinha em cartaz para mascarar algo muito mais sombrio.
Ela deslizou para o escritório. O brilho azulado do monitor indicava o sistema de segurança ativo, mas a senha mestra, memorizada durante uma discussão sobre a fusão das empresas, cedeu com um clique. Beatriz sentou-se na cadeira de couro, o frio do estofado contra sua pele parecendo um alerta. Seus dedos voaram pelo teclado. Rafael era metódico, um homem que não deixava pontas soltas. Ela acessou o diretório oculto, contornando os firewalls com a destreza de quem aprendera a esconder segredos desde a infância. Seus olhos varreram os arquivos até que um termo saltou da tela: Projeto Sombra - Protocolo de Extração Vasconcelos. Não era uma fuga. Era uma operação de remoção.
Na manhã seguinte, o café no centro de São Paulo serviu de cenário para a confirmação de seu medo. Ela encontrou o Dr. Arantes, ex-advogado da família, em uma mesa de canto. O homem parecia feito de pergaminho, os olhos injetados de um pavor antigo.
— O que Rafael Lacerda faz não é apenas aquisição, Beatriz — murmurou ele, a voz rouca enquanto o trânsito da Faria Lima fluía como um rio de aço lá fora. — Ele está pagando dívidas de vida. Se sua irmã aparecesse, a ruína da sua família não seria apenas financeira. Seria criminal. Sua irmã foi removida para garantir que o nome dos Vasconcelos não fosse apagado por um escândalo que envolvia terceiros muito mais perigosos que o próprio Rafael.
Beatriz sentiu o sangue gelar. A proteção de Rafael não era dotação; era um cativeiro de luxo para evitar que ela, a única herdeira restante, fosse arrastada para o mesmo abismo. O contrato de casamento não era apenas um papel; era o único escudo que a separava da escuridão que engolira sua irmã.
Ao retornar à mansão, o confronto era inevitável. Rafael a esperava no hall, a postura impecável, o olhar analítico fixo não em seu rosto, mas na mão direita de Beatriz. Um corte superficial sangrava, uma marca deixada pela pressa imprudente com que ela tentara fechar o cofre digital.
— A curiosidade é um traço perigoso em alguém que jurou discrição — a voz dele era um fio de navalha. Ele não gritou; ele simplesmente a encurralou contra a parede, a proximidade forçando Beatriz a sentir a eletricidade estática de sua presença. — Você sangra por algo que não consegue compreender, Beatriz.
Ele a conduziu ao quarto, o silêncio denso e carregado pelo perfume amadeirado dele. Sentada na borda da cama, ela observou enquanto Rafael, com uma precisão cirúrgica, limpava o ferimento. A mesma mão que desmantelava empresas com um gesto era a única que a protegia de um perigo que ele se recusava a nomear. Quando ele se afastou, Beatriz viu a pasta deixada sobre a poltrona. O fecho estava entreaberto, revelando documentos que provavam a extração forçada da irmã. Ela olhou para Rafael, percebendo que, para sobreviver, teria que jogar o jogo dele, mesmo que isso custasse sua alma.