O Jantar das Máscaras
O mármore do saguão da mansão Viana não refletia luz; ele a engolia. Helena ajustou a alça do vestido, sentindo o peso do olhar de Arthur sobre ela como uma coleira de diamante. Ele não a conduzia como uma noiva, mas como um ativo que precisava ser exibido sob luz controlada para garantir que nenhum acionista duvidasse da estabilidade de sua fusão.
— Lembre-se — a voz de Arthur era um murmúrio gélido, o hálito quente contra o lóbulo de sua orelha — eles não querem saber quem você é. Querem saber se você é um risco. Sorria, mas não se explique. Explicações são confissões de culpa.
As portas duplas se abriram. Beatriz Viana aguardava no centro do salão, uma estátua de seda e desprezo. Ela não se levantou. O silêncio que se seguiu foi uma arma carregada.
— Arthur. Vejo que finalmente trouxe a... companhia — o tom de Beatriz era uma lâmina. Ela ignorou a mão estendida de Helena. — Ouvi dizer que sua estada na escola do menino tem sido produtiva. Devo me preocupar com o quanto do patrimônio Viana será desviado para manter essa encenação de maternidade solteira?
Helena sentiu o instinto de defesa queimar, mas a mão de Arthur em suas costas tornou-se uma pressão possessiva, um lembrete físico de quem detinha o controle. Ele deu um passo à frente, colocando-se entre a mãe e Helena, uma muralha de elegância predatória.
— O patrimônio Viana está seguro, mãe. E Leo é a razão pela qual a estabilidade da família nunca foi tão necessária. Se alguém questionar a legitimidade do que construí, que o faça através de mim.
Beatriz estreitou os olhos, mas recuou diante da frieza cortante do filho. Arthur não a estava protegendo; ele a estava isolando, tornando-a dependente de sua autoridade para sobreviver àquele jantar. Helena percebeu, com um aperto no peito, que o preço daquela proteção era a sua própria voz.
Mais tarde, no escritório, o ambiente cheirava a couro e à frieza calculada de quem controla o destino de terceiros. Helena fechou a porta, o trinco ecoando como um veredito. Ela tinha poucos minutos antes que ele terminasse sua chamada. O contrato de noivado estava sobre a mesa, encadernado com sobriedade.
Helena folheou as páginas com dedos trêmulos, mas firmes. Seus olhos varreram o jargão jurídico até que a Cláusula 14.b saltou da folha, sublinhada por uma necessidade obscura de controle: “A gestão fiduciária de todos os ativos tangíveis e intangíveis da contratada será transferida integralmente para a holding Viana durante a vigência desta união, conferindo ao contratante o poder de decisão sobre liquidação, venda ou reinvestimento de capital.”
O ar pareceu rarefeito. Ela não era uma noiva, nem uma parceira estratégica; era um ativo financeiro sendo absorvido. O som da porta sendo aberta foi seco, cortante. Arthur entrou, a silhueta imponente recortada contra a luz do corredor. Ele não parecia surpreso ao vê-la ali. Seus olhos escuros percorreram o escritório antes de pousarem nela com uma calma quase clínica.
— A curiosidade é um traço perigoso, Helena — Arthur disse, caminhando até a mesa com passos calculados. — Especialmente quando você ainda não compreende a extensão da rede em que está presa.
Ele abriu o cofre pessoal, guardando um documento antigo, um registro que Helena reconheceu com um baque surdo no peito: era o dossiê sobre a falência de sua própria família, um papel que provava que a ruína que ela sofrera anos atrás tinha as digitais de um Viana. A proteção dele não era um presente; era a manutenção de uma dívida que ela nunca soube que devia. A guerra real, ela percebeu, acabara de começar.