Sucata de Ouro, Sorte de Cão
O ar no Setor 847 não era oxigênio; era uma suspensão de fuligem, óleo queimado e o desespero de quem não tinha para onde subir. Acima, a carcaça da Torre se perdia na neblina artificial, um monumento de aço que separava os vivos dos descartáveis. Kael apertava os punhos, sentindo a vibração do cronômetro holográfico no pulso: 47 minutos. Se ele não estivesse em um cockpit funcional até o zero, o sistema de triagem da Torre registraria seu rebaixamento automático para os túneis de mineração. Dívida: 12.400 créditos. Tempo de vida útil como cidadão: três dias.
— Próximo lote! — a voz do leiloeiro, distorcida por alto-falantes chiados, ecoou pelo pátio. — Chassi classe C, 87% de integridade. Lance inicial: 800 créditos.
Valéria, a herdeira de uma das casas menores, observava do alto de seu mech de combate, uma obra de engenharia em preto e dourado que parecia flutuar sobre a sujeira. Ela nem olhou para Kael. Para a elite, ele era ruído de fundo, um erro de arredondamento na estatística de sobrevivência da Torre.
— Não force, moleque — Mestre Aris murmurou, o cheiro de álcool barato emanando de suas roupas encardidas. — Eles manipularam o sorteio. Pega qualquer sucata que ande e some daqui antes que os cobradores percebam que você está falido.
Kael ignorou o mentor. Seus olhos estavam fixos no último item da rodada. Era um frame esquelético, placas de blindagem queimadas, um braço hidráulico pendurado por cabos de fibra expostos como um tendão rompido. Ninguém deu lance. O silêncio foi um insulto. O leiloeiro levantou o martelo, pronto para descartar o lixo.
— Eu fico com ele — Kael disse, a voz firme. — Zero créditos.
Risadas explodiram ao seu redor. Valéria virou o rosto, uma sobrancelha arqueada em desdém. Kael não se importou. No momento em que tocou o metal frio daquela carcaça, ele sentiu algo. Uma vibração rítmica, uma assinatura de energia que não deveria existir em uma sucata. Havia um log de dados oculto no núcleo.
Duas horas depois, na oficina claustrofóbica de Aris, o ar estava denso com o cheiro de metal cortado. Kael estava sob o chassi, as mãos cobertas de graxa, conectando o cabo de interface diretamente no núcleo do que ele chamava de 'Ferrugem'.
— Se você tentar forçar esse núcleo, Kael, ele vai explodir — Aris avisou, limpando as mãos em um trapo. — Esse chassi é de uma linhagem proibida. A Torre não descarta tecnologia de ponta por acaso. Isso é uma isca.
Kael ignorou. Ele acessou o log oculto. O monitor piscou em um tom neon desconhecido. Eram linhas de código que pareciam reescrever a física do chassi, ignorando os limitadores de performance impostos pela Torre. Quando o código rodou, o chassi estremeceu. A luz de diagnóstico mudou de vermelho para um azul pulsante. Ele tinha a vantagem, mas o custo estava claro: o metal começou a chiar devido ao superaquecimento.
A porta da oficina explodiu em farpas de metal. O Cobrador de dívidas entrou, um homem de ombros largos e um sorriso predatório. Ele não estava ali para negociar.
— Cinquenta minutos, pirralho — o Cobrador cuspiu, apontando para o tablet. — Se o seu amontoado de peças não estiver funcional e com a patente atualizada no duelo de agora, eu mesmo desmonto esse protótipo aqui e agora. Você não tem mais crédito, Kael. Você tem apenas o que pode provar.
Kael subiu no cockpit. A Arena de Qualificação era o único lugar onde a dívida podia ser paga com sangue e metal. Ao entrar na pista, o seu oponente, um veterano em um chassi pesado, avançou com um rugido hidráulico. Kael ativou o log de dados proibido. O mundo ao seu redor pareceu desacelerar enquanto o código forçava os pistões do Ferrugem a uma velocidade impossível.
Ele desviou de um golpe de martelo pneumático que teria esmagado um chassi comum. O público rugiu, incrédulo. Kael avançou, a interface do protótipo brilhando em seu visor. Ele venceu o duelo com um único movimento preciso, mas o triunfo durou pouco. O painel do cockpit começou a derreter, o metal cedendo sob o calor gerado pelo log de dados. Enquanto o Cobrador se aproximava para recolher a carcaça, Kael percebeu a terrível verdade: aquele protótipo não havia sido projetado para humanos comuns, e o próximo upgrade custaria muito mais do que créditos.