A Ascensão Pública
O ar na Arena de Combate do Pináculo estalava com o cheiro acre de ozônio e metal fundido. Kaelen Viana sentia cada vibração de seu chassi, um lamento metálico constante vindo dos atuadores pré-Pináculo que Luna integrara sob pressão. O indicador de integridade brilhava em um vermelho agressivo: 10%. Ele estava no limite absoluto da falha catastrófica, mas, pela primeira vez, o público não via um sucateiro prestes a ser descartado. Eles viam um sobrevivente.
— Você é apenas um erro de sistema, Viana — a voz de Valerius, o favorito de Silva, ecoava pelos alto-falantes, carregada de um desdém que começava a soar forçado. — Um sucateiro brincando de piloto. Vou desmontar esse lixo peça por peça.
Kaelen não respondeu. Seus dedos voavam pelo painel, ajustando o fluxo de energia para que o módulo proibido não entrasse em colapso total. Ele sentia a pressão da multidão. Antes silenciosos, agora eles emitiam um murmúrio crescente de expectativa. Silva, do camarote de comando, observava com os olhos estreitos, a autoridade abalada pela ousadia do desafio de Kaelen.
— O protocolo 4-B proíbe lutas com chassi abaixo de 30% — Silva tentou intervir, a voz fria. — O sistema negará. Você não passa de lixo, Kaelen.
— Direito de Sangue, Comandante — retrucou Kaelen, cravando a mão no console. — Transmissão aberta para toda a academia. Tente cancelar agora.
O zumbido estático da arena tornou-se um guincho agudo. O sistema, forçado pela cláusula arcaica, validou o duelo. A luz carmesim da arena banhou as arquibancadas, e o público, cansado da soberba da elite, começou a entoar o nome de Kaelen. O som era uma batida rítmica, o prestígio que ele nunca possuíra, mas que agora era sua moeda.
Valerius avançou, focando o disparo de plasma na articulação enfraquecida de Kaelen. O impacto foi uma descarga elétrica que percorreu o cockpit, mas Kaelen não recuou. Ele acionou o bypass de energia não autorizado. O módulo proibido pulsou com uma luz azulada, fria e alienígena, injetando uma rajada de energia bruta nos pistões. Com um movimento preciso, Kaelen travou a junta de Valerius e girou, forçando o mech de elite contra o solo da arena. O estrondo reverberou pelas paredes.
O rugido da arquibancada era de choque absoluto. Kaelen Viana, o sucateiro, acabara de forçar o favorito de Silva a um erro técnico catastrófico. O sistema de telemetria registrou a subida de Kaelen no ranking. No entanto, enquanto a multidão gritava seu nome, uma linha de código vermelho surgiu na retina de Kaelen. O sistema de purga de Silva fora ativado remotamente.
— Kael, o sistema de purga está drenando seu núcleo! — a voz de Luna surgiu, distorcida pelo desespero. — Se você não isolar o módulo agora, a sobrecarga vai explodir o chassi com você dentro!
Kaelen viu a barra de integridade despencar: 9%, 8%, 7%. O mech começou a se contorcer, faíscas azuis explodindo em rede nacional enquanto a purga de Silva, impiedosa e invisível, transformava seu troféu de vitória em uma bomba-relógio.