The Clock Narrows
Confronto na Sala Antiga
Caio empurrou a porta do apartamento com o ombro, a página rasgada ainda dobrada na mão esquerda como se queimasse. O cheiro de café requentado e óleo de máquina de costura o atingiu antes mesmo de ver a tia.
Lúcia estava de costas, curvada sobre a Singer preta, pedalando devagar como se costurasse o silêncio. A fita métrica de alfaiate pendia do pescoço dela, frouxa, inútil agora.
— 'Entregar L.' — disse Caio, voz baixa, mas cortante. Jogou o papel na mesa ao lado da máquina. A folha caiu aberta, a letra cursiva de Zé Raimundo tremendo na luz fraca da lâmpada.
Lúcia parou de pedalar. Não virou de imediato. Só os ombros subiram uma fração, como quem recebe um soco que já esperava.
— Você não devia ter trazido isso pra cá — murmurou ela.
— Eu não trouxe. Trouxeram pra mim. Armado na cara. — Caio deu dois passos para dentro da sala. — Seis dias, tia. O bilhete na porta. Agora isso. O que você guardou pra minha irmã?
Ela finalmente se virou. Os olhos fundos, vermelhos de quem não dorme há mais de uma noite. Pegou a página com dedos que tremiam só o suficiente para ele notar.
— Não era pra você saber.
— Ela morreu por causa disso, não foi? — A pergunta saiu mais rouca do que ele queria. — Não foi acidente. Ela descobriu o desvio das indenizações e ameaçou abrir a boca.
Lúcia fechou os olhos por um segundo longo.
— A carga especial chegou dois dias antes da explosão. Zé me chamou de noite, disse que precisava de um lugar seguro por algumas semanas. Eu recusei. Ele insistiu. Disse que era a única forma de proteger o dinheiro dos homens que tinham ficado sem nada depois do acidente. Eu cedi. — A voz dela rachou na última palavra. — Só guardei o contêiner de ferramentas. Nunca abri. Juro.
— Mas ela descobriu.
— Sim. — Lúcia baixou o olhar para a página. — Marina encontrou o comprovante na gaveta dele. Confrontou Zé. Ameaçou ir à polícia. Dois dias depois… a explosão.
Caio sentiu o chão inclinar de leve. Encostou na parede para não cair.
— E você ficou quieta.
— Eu tinha medo. — Ela ergueu o rosto, os olhos molhados mas firmes. — Medo por você, que já tinha ido embora. Medo por mim, que ainda vivia aqui. Medo do que fariam se soubessem que eu guardei a carga. Mas a lista completa… não está comigo.
— Onde está?
— No barracão do Tio Lauro, no cais. Dentro de um contêiner velho de ferramentas. Ele enterrou antes de sumir. Se ainda estiver lá… é o único lugar.
Caio respirou fundo, o ar parecendo grosso.
— Então eu vou buscar.
— Não vai, Caio. — A voz dela subiu pela primeira vez. — Seis dias viraram menos. Eles estão acelerando. Se você mexer naquele barracão, vão saber na hora. E vão vir atrás de nós dois.
Antes que ele pudesse responder, três batidas secas e pesadas na porta fizeram os dois congelarem.
— Dona Lúcia! — voz masculina do outro lado, oficial, sem paciência. — Autoridade Portuária. Abra, por favor.
Lúcia olhou para Caio, pânico cru no rosto.
Ele foi até a porta, espiou
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