The Ledger Cost
The Disturbance
Caio parou diante do portão gradeado da administração da Doca 17, o comprovante rasgado ainda quente no bolso da jaqueta. O segurança — um sujeito largo chamado Marcinho, que sete anos atrás carregava caixas no mesmo turno que ele — bloqueava a passagem com os braços cruzados e o queixo erguido. A luz amarela do poste batia no distintivo novo da empresa de vigilância privada que ninguém no cais lembrava de ter contratado.
— Já disse que não tem mais nada aqui pra você, Serra. Vai embora antes que eu chame reforço.
Caio manteve a voz baixa, quase amigável.
— Só preciso olhar o livro de registro de 2019. Cinco minutos. Ninguém vai saber.
Marcinho deu um riso curto, sem humor.
— Livro? Aqui não tem mais livro. Tudo digital agora. E o sistema só abre pra quem tem login autorizado. Você não tem.
Caio deu um passo à frente, mantendo as mãos visíveis.
— O Zé Raimundo tinha acesso. Quem ficou com a senha dele?
O segurança descruzou os braços devagar. A mão direita desceu até o coldre.
— Zé sumiu. E quem pergunta por ele costuma sumir também. Sete dias, Caio. Depois que a retroescavadeira passar, ninguém vai encontrar nem poeira daquele contêiner. Nem do nome que estava escrito nele.
Caio sentiu o estômago apertar. O nome da irmã não era segredo entre eles dois. Marcinho sabia exatamente o que estava em jogo.
— Me deixa falar com o chefe atual. Quem quer que tenha ficado no lugar do Zé.
— O chefe não fala com curioso. Fala com cliente. E você não é cliente.
Um carro de luxo preto virou a esquina do pátio administrativo, faróis altos cortando a garoa fina. Parou a poucos metros. O vidro traseiro desceu devagar. Um homem de uns cinquenta anos, terno cinza bem cortado, cabelo penteado para trás, olhou para Caio sem piscar. Ao lado dele, no banco do passageiro, outro segurança mais jovem segurava um tablet.
Marcinho se endireitou na mesma hora.
— É com ele que você quer falar?
Caio não respondeu. O homem no carro ergueu um dedo, gesto curto, e Marcinho abriu o portão sem hesitar.
— Entra. Mas só até a guarita. Depois disso, é por sua conta.
Caio passou pelo portão sentindo o peso do olhar do homem no carro. Quando chegou à guarita, Marcinho entregou um papel dobrado — não era um passe, era um recibo antigo, amarelado, com carimbo da alfândega de 2019. No canto inferior, escrito à mão com caneta preta: Lista de cargas — cópia com Tio Lauro. Não mexer.
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