O Preço da Proteção
O mármore do salão do Hotel Unique parecia gélido sob os pés de Beatriz. O vestido de seda, um empréstimo forçado que ela mal conseguia respirar dentro, pesava como uma armadura de gala. Ao seu lado, Rafael Alcântara não apenas caminhava; ele a conduzia como uma extensão de seu poder, a mão espalmada contra a base de suas costas. O toque era possessivo, calculado, um lembrete físico de que ela não era uma convidada, mas uma mercadoria em plena exibição.
— Sorria, Beatriz — sussurrou ele, o tom baixo, cortante. — A elite paulistana fareja medo como tubarões farejam sangue. Se você tremer agora, nosso contrato perde o valor antes mesmo da primeira assinatura.
Beatriz endireitou a coluna. O salão estava repleto de rostos que, meses atrás, a teriam pisoteado sem reconhecer seu sobrenome. Agora, eles a observavam com curiosidade venal, tentando decifrar o mistério da noiva substituta de Rafael. Um investidor, cujas mãos Beatriz já vira tremer em reuniões de diretoria, aproximou-se com um sorriso amarelo.
— Rafael, que surpresa. A senhorita Viana sempre manteve-se tão reservada, não é? Onde estava escondida?
Rafael não permitiu que ela respondesse. Ele estreitou o círculo ao redor de Beatriz, um escudo de ombros largos.
— Beatriz prefere a discrição aos holofotes, algo que, infelizmente, é uma raridade neste recinto. Se me dão licença, temos assuntos de estado a tratar.
Eles se afastaram, mas a paz durou pouco. No terraço, sob a luz fria dos refletores, Helena Viana bloqueou o caminho. Seus olhos, estreitados em um escrutínio predatório, ignoravam a seda do vestido de Beatriz para focar na falha que ela esperava encontrar.
— Uma substituta? — Helena soltou uma risada seca. — Rafael, você sempre teve um gosto peculiar pelo improviso, mas trazer uma completa desconhecida para o nosso círculo exige um nível de desespero que não combina com a sua reputação. Quem é você, querida? A agência de modelos estava em liquidação?
Beatriz sentiu o peso do testamento original contra seu quadril, uma âncora de verdade em um mar de mentiras. Antes que pudesse formular uma resposta, a mão de Rafael apertou sua cintura com uma possessividade que enviou um choque elétrico pela espinha de Beatriz.
— Ela é Beatriz Alcântara, Helena. E o fato de você não a reconhecer diz mais sobre a sua falta de atenção aos detalhes do que sobre a origem dela. Talvez você devesse se preocupar menos com as minhas escolhas e mais com a sua própria irrelevância — a voz de Rafael era gelo puro.
Helena empalideceu, recuando, mas Rafael não esperou. Ele arrastou Beatriz para uma sala de reuniões privativa, trancando a porta. O silêncio ali dentro era denso.
— Você tem dez minutos para me provar que sabe sustentar essa farsa — disse ele, desabotoando o paletó. — A noiva original fugiu levando dados corporativos que valem milhões. Você é o meu seguro, Beatriz. Não ouse falhar.
— A farsa é sua, senhor Alcântara — retrucou ela, invadindo o espaço pessoal dele. — Eu sou apenas a ferramenta que você não teve escolha a não ser usar. E, pelo que vi lá fora, seu seguro está funcionando melhor do que o esperado.
Rafael estreitou os olhos, um brilho de interesse predatório cruzando seu rosto. Ele se aproximou, a proximidade forçada fazendo o coração de Beatriz acelerar. Ela percebeu que ele não era apenas um aliado, mas um jogador que ela precisava domar.
Mais tarde, no escritório de Rafael, Beatriz vasculhou as pastas estratégicas enquanto ele se ausentava. Seus dedos pararam em um documento datado de doze anos atrás: uma ordem de despejo emitida pela Alcântara Holdings contra a editora de seu pai, assinada por Arthur Alcântara. O estopim da ruína de sua família não fora o azar, mas a ganância do homem que agora a protegia.
Beatriz sentiu o sangue gelar, mas, quando a porta se abriu e Helena Viana entrou, ela não recuou. Ela manteve a calma, a máscara de porcelana intacta, enquanto o olhar de Rafael — que acabara de retornar à sala — queimava suas costas. Ele estava testando sua capacidade de mentir sob pressão, sem saber que, agora, ela tinha o alvo perfeito para sua vingança.