Novel

Chapter 1: O Baile da Humilhação

Beatriz, infiltrada como camareira para recuperar provas de sua herança, é confrontada por Helena Viana no baile de gala. Quando a noiva de Rafael Alcântara foge, deixando o magnata em uma crise corporativa, ele força Beatriz a assumir o papel de noiva sob ameaça e promessa de proteção.

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O Baile da Humilhação

O mármore do Hotel Unique, em São Paulo, era uma superfície fria e impiedosa sob as solas gastas de Beatriz Viana. O uniforme de camareira, uma farda cinza que ela usava como uma armadura de invisibilidade, era o único obstáculo entre ela e a elite que circulava pelo salão de baile. Dentro do sutiã, contra a pele, o papel dobrado e selado — o testamento original de seus pais — pulsava como um lembrete de que, naquela cidade, a verdade não valia nada se não estivesse assinada e reconhecida em cartório.

Beatriz não estava ali para servir champanhe. Estava ali para recuperar o que Helena Viana, sua meia-irmã, havia usurpado com uma fraude arquitetada em silêncio. Ela precisava apenas chegar ao escritório da gerência, trocar a chave mestra que subtraíra por um documento de propriedade que provasse sua linhagem, e desaparecer antes que a meia-noite encerrasse o evento.

O salão fervilhava. O ar era pesado com o perfume caro e a tensão de uma fusão corporativa que, segundo os rumores, definiria o mercado imobiliário da década. Beatriz manteve a cabeça baixa, equilibrando a bandeja de prata, sentindo o peso dos olhares como lâminas. Ela estava a poucos metros da porta lateral quando uma silhueta bloqueou seu caminho.

Helena Viana não caminhava; ela desfilava. O vestido de alta-costura, uma peça que deveria ter sido de Beatriz por direito de herança, parecia um insulto esculpido em seda.

— Você — sibilou Helena, a voz baixa, carregada de um veneno que apenas Beatriz podia sentir. — A audácia de uma mendiga é quase admirável. Acha mesmo que, por ter entrado por uma porta de serviço, esse pedaço de papel que você carrega vai te devolver o sobrenome? Você é um erro que meu pai apagou. Saia daqui antes que eu chame a segurança e garanta que você nunca mais trabalhe nesta cidade.

Beatriz sentiu a ponta da chave do cofre pressionar sua costela. A humilhação era pública, mas a humilhação só tinha poder se ela a aceitasse. Ela ergueu o queixo, mantendo a postura de quem, mesmo deserdada, conhecia o valor do próprio sangue.

— O que você teme, Helena? — Beatriz respondeu, a voz calma, cortando o ruído das taças. — O documento ou o fato de que o seu castelo de cartas pode ser soprado por uma rajada de vento a qualquer momento?

Antes que Helena pudesse reagir, o caos irrompeu perto da mesa principal. Um grito abafado, seguido pelo som de um celular caindo, atraiu a atenção de todos. A noiva de Rafael Alcântara, pálida e trêmula, soltara o buquê e corria em direção à saída, ignorando os seguranças. O vácuo corporativo era imediato. Rafael, que observava a cena com uma frieza cirúrgica, virou-se, seus olhos cinzentos varrendo o salão até pousarem em Beatriz. Ele viu a mancha de champanhe no uniforme dela, a postura desafiadora e a ausência total de medo. Ele não viu uma camareira; ele viu uma oportunidade de sobrevivência.

Rafael atravessou o salão com passos largos, afastando Helena com um gesto seco de mão. Ele segurou o braço de Beatriz, a firmeza de seu toque enviando um choque elétrico pela pele dela. Sem dizer uma palavra aos convidados, ele a arrastou para o escritório privado, fechando a porta com um estalo que selou o destino de ambos.

O escritório cheirava a mogno e couro. Rafael soltou-a, servindo-se de uma dose de uísque, os olhos fixos nela.

— Você tem uma coragem imprudente, Beatriz Viana — disse ele, a voz um rosnado baixo. — Aparecer aqui apenas para ser humilhada pela mulher que ocupa o seu lugar. O que esperava? Uma cena de novela?

Beatriz endireitou os ombros, recuperando o fôlego. — Eu não vim por esmolas, Sr. Alcântara. Eu vim pelo que é meu.

Rafael aproximou-se, invadindo seu espaço pessoal. O olhar dele era uma armadilha. — Você não é quem diz ser para o mundo, mas é a única que possui a frieza necessária para salvar meu negócio hoje. Aceite o contrato ou saia deste hotel sem nada.

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