O Último Backup
O ar no subsolo técnico era denso, saturado com o cheiro de ozônio e a umidade que subia dos dutos de ventilação. Elias Viana não sentia mais o frio; sentia apenas o peso do Livro-Razão Negro contra suas costelas, uma carga que pesava mais do que as dívidas que Helena Siqueira agora detinha. O relógio no monitor de diagnóstico era um carrasco silencioso: 10h 18m para a purga definitiva dos logs.
Ele golpeou a tecla 'Enter'. O sistema de segurança, em modo de manutenção, permitiu a entrada, mas a rede estava estrangulada. Helena não apenas controlava suas finanças; ela controlava o fluxo de dados que mantinha sua vida profissional em xeque.
— Você acha que pode comprar sua redenção com arquivos corrompidos? — a voz de Helena, amplificada pelo interfone do subsolo, soou como uma lâmina. — Elias, pare agora. Você não é um auditor. Você é um devedor. A segurança já foi informada da sua localização.
Elias ignorou o aviso, os olhos fixos na barra de progresso. 12%. O som de botas táticas ecoou contra o concreto do corredor principal. Eles não estavam mais procurando por um erro de sistema; estavam caçando um homem. Ele precisava redirecionar o tráfego através de um túnel de diagnóstico oculto. Se fosse pego com o Livro-Razão Negro, a dívida seria o menor dos seus problemas. A morte de Sebastião Ramos, vítima de uma cirurgia fantasma, era a prova que Helena protegeria com sangue.
34%. O tilintar de chaves de segurança aproximou-se. Elias abandonou o terminal e correu para a escada de emergência. A umidade da chuva que filtrava pelas frestas das janelas de ventilação tornava cada degrau uma armadilha escorregadia. Ele precisava de sinal. O subsolo era um bunker de concreto, mas a janela de manutenção no topo da escada de serviço prometia o único ponto de conexão estável com o servidor externo.
Ele alcançou o telhado ofegante. O vento cortante da tempestade castigava seu rosto, mas o sinal de rede finalmente oscilou para um nível aceitável. Conectou o dispositivo portátil, os dedos quase congelados digitando a senha de nível dois. A barra de progresso avançou, frenética. 78%.
Atrás dele, a porta de metal do telhado foi arrombada com um estrondo. Dois seguranças, silhuetas imponentes contra a luz do corredor, avançaram com as mãos nas cinturas. Elias não recuou. O upload atingiu 90%. Ele estava encurralado entre o abismo do prédio e o poder institucional que o esmagava. O sistema de logs começou a emitir o aviso de purga iminente. O upload das provas continuava, mas a conexão oscilava perigosamente conforme a tempestade intensificava sua fúria.