O Preço da Lealdade
O teclado mecânico de Lucas era o único som no subsolo, um tique-taque que parecia contar os segundos da vida de Elias Viana. Na tela, a barra de progresso do upload estagnou em 42%. Faltavam onze horas e oito minutos para a purga automática dos logs. O tempo não era apenas uma variável técnica; era uma sentença de morte.
— Vai logo, Lucas — Elias murmurou, a voz áspera, os olhos fixos na porta de metal. O cheiro de antisséptico, misturado ao mofo da chuva que invadia as fundações, tornava o ar denso, quase sólido.
Lucas não respondeu. Seus dedos, antes ágeis, agora pairavam sobre as teclas com uma hesitação calculada. Ele não estava acelerando o upload; estava mantendo a conexão aberta o suficiente para que o sistema de segurança central triangulasse a origem do acesso.
— O sinal está instável, Elias — disse Lucas, sem desviar o olhar do monitor. — A diretoria está filtrando a rede. A Dra. Helena não tolera acessos não autorizados. Você sabe disso melhor do que ninguém.
O estômago de Elias despencou. O brilho azul do monitor refletido nos olhos de Lucas não revelava medo, mas uma resignação fria. Ele não era um aliado; era um informante que acabara de trocar a ética profissional por uma vaga no corpo clínico permanente.
Elias avançou, mas antes que pudesse tocar no teclado, a tela piscou em vermelho sangue: PROTOCOLO DE PURGA ATIVO. O som de botas táticas ecoou no corredor, aproximando-se com a cadência de uma execução. Lucas levantou-se, ajeitando o jaleco, o rosto desprovido de qualquer traço de culpa. Ele tinha vendido Elias.
Elias arrancou o pen drive da porta USB e mergulhou na escuridão. O hospital, antes um labirinto familiar, tornara-se uma armadilha metálica. Seu crachá de identificação, agora um pedaço de plástico inútil, brilhava em vermelho na leitura biométrica de cada porta corta-fogo. Ele estava preso no setor técnico enquanto o sistema emitia um zumbido agudo, um alerta de caça monitorado diretamente pela Dra. Helena Siqueira.
Sem saída, Elias subiu pela escada de serviço, forçando a entrada no teto falso da ala administrativa. Rastejando pelo duto de ventilação, ele alcançou uma fresta sobre o escritório da diretora. Helena Siqueira não parecia uma médica; seus gestos eram os de uma cirurgiã removendo um tumor sistêmico. Com precisão cruel, ela alimentava uma trituradora industrial com prontuários.
Elias prendeu a respiração, o pen drive queimando sua palma. O vídeo era sua única moeda, mas ao ver Helena abrir o cofre camuflado atrás do painel de madeira nobre, ele percebeu que sua aposta era pequena demais. Ela retirou um registro encadernado em couro negro: o 'Livro-Razão Negro'. O peso daquele objeto no mundo físico era absoluto. Era a prova definitiva de que a corrupção não era um erro, mas o alicerce do hospital.
Um feixe de lanterna varreu a fresta da porta de serviço onde ele se escondia. A voz de um segurança cortou o ar: — A Dra. Siqueira quer esse intruso contido antes da troca de turno. Não deixem nada que possa ser rastreado.
Elias sabia: ele não era mais um funcionário em busca de respostas; era um erro de sistema a ser deletado. Com o relógio marcando 10h 45m para a purga total, ele não tinha mais para onde fugir. Ele teria que roubar o livro do cofre de Helena, transformando sua investigação em uma invasão suicida.