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Chapter 2: O Custo do Acesso

Elias suborna a enfermeira Lúcia com suas últimas economias para obter acesso ao sistema, mas a Dra. Helena Siqueira o flagra durante o download, deixando-o sob vigilância direta e com um arquivo de vídeo parcialmente corrompido que incrimina o Diretor Mendes.

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O Custo do Acesso

O brilho azulado do terminal de auditoria, no subsolo do hospital, parecia mais frio do que o normal. Elias Viana observava o cursor piscar sobre o campo de acesso ao Prontuário 402, o coração latejando contra as costelas. O sistema não apenas negara a entrada; ele o isolara. Uma mensagem em letras vermelhas, estática e definitiva, ocupava o canto inferior da tela: Acesso restrito. Auditoria de segurança em curso. Usuário Viana, E. sob monitoramento.

Eram 02h18 da manhã. O servidor principal marcava 11 horas e 42 minutos até a purga automática dos logs. O hospital, um monólito de concreto e vidro, parecia encolher ao redor dele, sufocado pela chuva pesada que martelava as janelas. Alguém com credencial de nível diretor havia limpado o vídeo da ala 400 minutos após sua primeira tentativa de acesso. O suor frio escorria-lhe pela têmpora. Ele não podia mais investigar legalmente; precisava de uma credencial que não estivesse marcada.

Elias encontrou Lúcia no refeitório, um espaço úmido e barulhento, onde o som da chuva contra o teto de metal abafava quase tudo. A enfermeira-chefe limpava a mesa com um guardanapo, a mão visivelmente trêmula.

— Eu não posso, Elias — sussurrou ela, sem erguer os olhos. — A Helena não está apenas revisando prontuários. Ela está fazendo uma faxina completa para a inspeção de fundos que acontece em doze horas. Se ela vir que um acesso de nível dois foi feito, ela saberá que fui eu.

Elias sentiu o peso do relógio digital em seu pulso, invisível, mas implacável. Faltavam 11 horas e 34 minutos. Ele sabia que o emprego de Lúcia sustentava o tratamento de saúde da mãe dela; era o único contrato formal que ela tinha em anos. Elias puxou um envelope de dentro do casaco, sacrificando sua última reserva financeira — o dinheiro que deveria pagar o aluguel e as cobranças de atraso que o perseguiam. Ele o deslizou pela mesa, um gesto que selava seu próprio destino de vulnerabilidade.

— Se eles limparem tudo, quem vai responder quando a auditoria externa descobrir a fraude? — a voz de Elias era um corte seco. — Você quer carregar essa culpa sozinha quando a casa cair?

Lúcia olhou para o envelope, depois para o rosto dele, a dignidade dela lutando contra o desespero. Ela cedeu, anotando uma sequência numérica num pedaço de papel que logo foi engolido pela umidade da mesa. — Helena está em modo de limpeza total — avisou ela, com a voz embargada. — Cada movimento no sistema agora dispara um alerta silencioso. Se você entrar, não terá para onde correr.

De volta à sala de auditoria, o teclado mecânico parecia um estalo de osso. Elias inseriu a credencial. A barra de progresso do download começou a avançar, mas, antes que atingisse metade, a porta de vidro temperado deslizou sem aviso. A silhueta impecável da Dra. Helena Siqueira surgiu no reflexo do monitor.

— Auditoria noturna, Elias? — A voz de Helena era o som de uma lâmina sendo amolada em seda. Ela caminhou até o centro da sala, o salto alto ecoando no linóleo. — O sistema registra uma tentativa de acesso não autorizada ao setor de vídeo há quinze minutos. Alguém parece estar muito interessado em fantasmas.

Elias girou a cadeira, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. O cheiro de antisséptico dela era opressor. — Apenas conferindo a integridade dos arquivos para a inspeção, Dra. Helena. O sistema está instável.

Helena permaneceu ali, observando-o com um olhar clínico, quase predatório. Ela não saiu, mas deixou a porta entreaberta, mantendo-o sob vigilância constante enquanto ele tentava finalizar o download. Quando ela finalmente se retirou, o alarme de segurança disparou silenciosamente no console central. O arquivo estava corrompido, restando apenas um fragmento de dez segundos. Elias viu o rosto do Diretor Mendes no quarto 402, provando a execução, enquanto o sistema, em resposta, iniciava a purga final. O relógio saltou de horas para minutos. Ele estava preso, e o hospital começava a fechar o cerco.

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