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Chapter 1: O Erro no Prontuário 402

Elias Viana, auditor hospitalar, descobre uma alteração letal no prontuário 402. Ao tentar investigar, descobre que o hospital está sendo 'limpo' pela diretora Helena Siqueira para uma inspeção, e seu acesso aos logs de vídeo é bloqueado, disparando um alerta de segurança que o coloca na mira da administração.

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O Erro no Prontuário 402

A chuva em São Paulo não caía; ela esmagava o Hospital Santa Cecília, transformando o concreto em uma fortaleza úmida e isolada. Dentro da sala de auditoria, o zumbido dos servidores era o único som que competia com a tempestade. Elias Viana, com os olhos ardendo pela luz azul dos monitores, massageou as têmporas. O gosto de café requentado e o peso dos boletos atrasados em seu bolso eram lembretes constantes de que, ali, ele não era um investigador; era um burocrata pago para manter o sistema funcionando sem atritos.

Na tela, o prontuário 402 piscava. O paciente, um homem sem acompanhantes, dera entrada com uma arritmia controlável, mas morrera em quatro horas. O relatório oficial, assinado pela Dra. Helena Siqueira, apontava uma falha multiorgânica degenerativa. Elias, movido por um automatismo cínico, cruzou os dados com o log de medicação. Seus dedos pararam. Uma dosagem de cloreto de potássio fora registrada às 03:14, dez minutos antes da parada cardíaca. A dose era letal. O campo, contudo, fora editado às 04:00 por um administrador: o registro fora substituído por uma solução salina inócua.

O estômago de Elias contraiu. No canto superior da tela, um cronômetro digital brilhava em vermelho: Dados em expiração: 11h 59m. O sistema de otimização de logs deletaria a trilha definitiva em menos de doze horas. Ele era o único que sabia da falha, e o tempo agora era seu maior credor.

Elias levantou-se, as articulações estalando. Precisava de uma confirmação. A enfermeira Lúcia, veterana na UTI, era a única que ainda não aprendera a mentir com a polidez da diretoria. O corredor da UTI parecia um túnel de luz estéril, o cheiro de antisséptico misturando-se à umidade que subia pelas paredes. Lúcia estava de costas, organizando fichas. Quando ele se aproximou, ela não se virou, mas seus ombros subiram, contraindo-se.

— Lúcia — chamou ele, a voz técnica. — O 402. O registro foi editado. Quem estava no quarto?

Ela girou, os olhos arregalados, buscando câmeras no teto. — Você não deveria estar perguntando isso, Elias. A Dra. Helena está pessoalmente conduzindo uma auditoria de qualidade. Ela está limpando tudo. Se ela souber que você está fuçando o prontuário de um 'paciente de risco', não vai sobrar nem o seu crachá.

— Limpando tudo? — Elias sentiu o sangue gelar. — Isso não é auditoria. É destruição de provas.

Lúcia sussurrou com urgência: — O hospital está em estado de alerta. Ela está apagando erros, Elias. Se você for esperto, vai ignorar esse prontuário e voltar para a sua sala. Ela está preparando o hospital para uma inspeção surpresa amanhã cedo. O tempo está acabando para todo mundo aqui.

De volta à sala, o contador marcava 11h 42m. O medo de Lúcia era uma evidência física. Ele acessou o diretório de segurança. Precisava ver quem entrara no quarto 402. Com as mãos trêmulas, clicou no arquivo de vídeo do horário do óbito. A tela escureceu e uma janela de diálogo surgiu:

ERRO 403: ACESSO RESTRITO. TENTATIVA DE INVASÃO REGISTRADA. NOTIFICANDO ADMINISTRADOR.

Elias sentiu o suor frio. O sistema não estava apenas protegendo o arquivo; ele estava caçando quem tentasse abri-lo. Ele era o alvo agora, e o contador, implacável, continuava a descer.

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