A Rendição
O escritório de Rafael Viana, no trigésimo andar da holding, parecia ter encolhido. O silêncio não era de paz, mas de vácuo, uma pressão barométrica que tornava o ar rarefeito. Sobre a mesa de mogno, restavam apenas os fragmentos do contrato de noivado. Beatriz observou os restos de papel picado. A destruição física daquele documento não apagava a dívida dos Alencar, nem silenciava os lobos do conselho, mas dissolvia o único escudo jurídico que ela possuía contra a ruína total.
— Você não deveria ter feito isso — disse ela, a voz firme, embora o nó em sua garganta traísse a calmaria. — Sem o contrato, o conselho tem carta branca para destituí-lo antes do amanhecer. Você sacrificou seu legado por uma formalidade que eu estava disposta a honrar.
Rafael, parado diante da parede de vidro que exibia as luzes frias de São Paulo, não se virou. Seus ombros, antes tensos sob o peso da presidência, pareciam estranhamente leves, como se a perda do poder fosse, na verdade, uma libertação.
— O contrato era uma mentira necessária, Beatriz. Mas, quando Menezes entregou os dados ao conselho, a mentira tornou-se uma prisão — ele respondeu, voltando-se para ela. Seus olhos, sempre impenetráveis, carregavam agora uma vulnerabilidade crua. — Eu não poderia manter você amarrada a um navio que eu mesmo decidi afundar.
Beatriz sentiu o peso daquela escolha. Ele não estava apenas renunciando a um cargo; estava renunciando à armadura que o definia. Ela se aproximou, a determinação substituindo o choque inicial.
— Então, se o navio está afundando, vamos garantir que os responsáveis venham conosco. Eu tenho as provas dos desvios de Menezes. Eles acham que, sem o contrato, eu sou apenas uma socialite sem poder. Vamos provar que eles estão errados.
Na manhã seguinte, a sala de reuniões da Viana Holding cheirava a café frio e desespero contido. Três conselheiros mantinham pastas abertas, os olhares fixos em Beatriz com a voracidade de quem fareja sangue.
— O documento está anulado, Beatriz — afirmou o conselheiro Mendes, a voz destilando uma polidez venenosa. — Sem o vínculo matrimonial, sua presença aqui é uma violação de protocolo. Assine a declaração de nulidade e economize a humilhação de ser escoltada para fora.
Rafael, sentado à cabeceira, mantinha a postura rígida de uma estátua de mármore. Ele não interveio, seus olhos fixos em Beatriz, testando se ela ainda detinha a agudeza que o atraíra. Beatriz não se moveu para pegar a caneta. O frio do mármore sob a mesa era um contraste com o calor da tensão na sala.
— A nulidade pressupõe que o acordo foi descumprido — Beatriz disse, sua voz cortante. — O que vocês esqueceram, senhores, é que a minha lealdade a esta holding não estava vinculada a uma cláusula de papel, mas aos fatos que tenho em mãos. — Ela deslizou um envelope sobre a mesa. — Aqui estão os registros das transações paralelas de Menezes. Se pretendem destituir o presidente, terão que explicar ao conselho fiscal por que ignoraram os desvios que eu, uma mera 'noiva contratual', tomei a liberdade de documentar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os conselheiros trocaram olhares, a voracidade substituída por um pânico súbito. O jogo de poder havia mudado de eixo.
Horas mais tarde, no apartamento de cobertura de Rafael, a atmosfera era densa. Rafael observava a cidade noturna, a silhueta desenhada pelas luzes da metrópole.
— Você salvou a presidência, pelo menos por hoje — ele disse, sem se virar. — Mas o passado, Beatriz... o segredo sobre o meu pai e o seu... ele ainda nos persegue. O contrato era a única coisa que mantinha o conselho afastado dessa ferida.
— Eu não preciso de um contrato para enfrentar o que quer que o passado tenha guardado para nós — ela respondeu, parando ao lado dele. — A compensação que recebi não foi o dinheiro ou a mansão. Foi a parceria de um igual.
Ele se virou, e a barreira de desconfiança que ele erguera durante anos pareceu desmoronar.
— Para mim, nunca foi sobre a cláusula sucessória — confessou ele, a voz baixa, vibrando com uma intensidade que a fez prender a respiração. — Foi sobre encontrar alguém que visse o homem sob a coroa e decidisse ficar, mesmo quando a coroa estava sendo arrancada.
O prazo legal para a anulação formal expirava em minutos. O relógio de mesa, um objeto de latão que Beatriz detestava, marcava a contagem regressiva. Sobre a mesa, o documento de anulação esperava. Beatriz caminhou até ele, mas em vez de assinar, ela tocou o mecanismo do relógio e o travou. O tique-taque cessou.
— O tempo acabou, Rafael — disse ela, encarando-o com uma firmeza que não admitia recusas. — Não há mais contrato. Não há mais farsa.
Rafael olhou para o documento, depois para ela. Ele pegou o papel e, sob o olhar atento de Beatriz, rasgou-o ao meio, deixando os pedaços caírem como neve sobre o mogno. Ele se recusou a assinar a anulação, selando o compromisso genuíno enquanto o gala final se aproximava.