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Chapter 10: A Armadilha Final

Beatriz confronta Rafael sobre o dossiê de vigilância, forçando uma renegociação de poder. Durante a reunião do conselho, ela expõe os desvios de Menezes, mas a ameaça de exposição da cláusula oculta persiste. Rafael, em um ato de proteção final, rasga o contrato de noivado, sacrificando sua posição na holding para salvar a reputação de Beatriz.

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A Armadilha Final

O ar no escritório de Rafael, no trigésimo andar da Viana Holding, não era apenas rarefeito; era tóxico. Beatriz jogou a pasta de couro sobre a mesa de mogno. O som seco do impacto, um estalo de madeira contra madeira, foi o único aviso antes que ela cruzasse os braços, mantendo a postura de quem não aceitaria mais ser um peão.

— Você me vigiava antes mesmo de me conhecer, Rafael — a voz dela era um fio de navalha, contida e precisa. — O dossiê. A rotina dos Alencar detalhada em datas, horários e fraquezas. Isso não é proteção. É mapeamento de alvo. Você não me contratou por acaso; você me caçou.

Rafael, parado diante da vidraça que refletia as luzes de uma São Paulo indiferente, girou a cadeira. O cansaço não era apenas físico; era o peso de um império que começava a rachar sob seus pés. Ele não negou. A honestidade, naquele momento, era a única arma que lhe restava.

— Eu precisava saber com quem estava lidando — respondeu ele, a voz rouca. — Quando comprei a dívida da sua família, eu não estava apenas adquirindo ativos. Eu estava comprando o meu próprio pescoço. Se o seu pai sabia sobre a morte na minha família, eu precisava entender o alcance desse segredo antes que ele nos destruísse. A vigilância era um seguro contra a sua própria história, Beatriz.

Beatriz sentiu o estômago revirar, mas sua dignidade era um escudo. Ela não permitiria que a revelação a desestabilizasse.

— O jogo mudou. O dossiê agora está comigo, e as provas dos desvios de Menezes também. Se você quer que eu continue sendo sua noiva perante o conselho, o contrato será renegociado. Sem cláusulas ocultas. Sem vigilância. Somos parceiros de igual para igual, ou eu entrego esses documentos à imprensa antes da reunião de amanhã.

Rafael estudou-a. O brilho em seus olhos oscilava entre a frustração e uma perigosa forma de respeito. Ele não estava acostumado a ser encurralado, muito menos por alguém que ele acreditava ter sob controle total.

*

A sala de reuniões do conselho cheirava a traição e café frio. Rafael estava à cabeceira, a postura impecável como uma armadura. À sua direita, Beatriz mantinha a coluna reta, os dedos sobre a pasta que continha o fim da carreira de Menezes.

— O conselho não pode ignorar o fato, Rafael — Menezes levantou-se, a voz carregada de uma falsa preocupação. — O seu noivado não é apenas uma união de conveniência. É uma tentativa de mascarar a instabilidade financeira que você causou ao liquidar ativos da holding. E há mais. O conselho tem conhecimento da cláusula oculta. A morte não declarada que assombra o seu nome.

Beatriz abriu a pasta e deslizou os documentos sobre a mesa.

— O senhor Menezes fala muito sobre integridade, mas esqueceu de mencionar os desvios de verba que ele orquestrou através de subsidiárias nas Ilhas Cayman — a voz de Beatriz cortou o murmúrio da sala. — As provas estão aqui. Cada conta fantasma, cada desvio de capital. O noivado não é o problema, Menezes. O seu desespero em esconder o próprio roubo é o que está destruindo a Viana Holding.

O caos instalou-se. Menezes empalideceu, mas contra-atacou com um sorriso de escárnio.

— Isso não apaga o passado! — ele bradou. — Se o conselho não votar pela destituição, eu vazarei os detalhes daquela morte. O escândalo destruirá a reputação da senhorita Alencar. Ela será vista como a cúmplice de um assassino.

Rafael levantou-se. O silêncio que ele impôs foi absoluto. Ele sabia que, para salvar Beatriz da lama, precisava abrir mão do trunfo que mantinha a holding de pé: a aliança estratégica com o grupo de investimentos. Sem ela, ele estaria à beira da falência, mas o nome de Beatriz estaria limpo.

*

De volta à residência dos Viana, a penumbra parecia comprimir o ar. Sobre a mesa, o contrato de noivado repousava como uma sentença.

— O conselho votará ao amanhecer — ela disse, a voz cortante. — Se você mantiver a aliança estratégica, eles usarão o dossiê sobre o meu pai como moeda de troca. Você será deposto.

— O contrato foi desenhado para nos proteger — Rafael respondeu, a voz despida de frieza. — Se eu romper a aliança, perco o controle majoritário. É falência técnica.

— Mas você mantém a dignidade — ela rebateu, aproximando-se. — E interrompe o ciclo de chantagem. Você não pode ser um refém, Rafael. Não mais.

Rafael deu um passo em direção a ela, invadindo seu espaço pessoal. Ele pegou o contrato de noivado e, sem desviar o olhar, rasgou-o ao meio.

— O contrato não existe mais — ele sussurrou. — Eu prefiro perder o império a ver você ser destruída por causa dele. Amanhã, quando o sol nascer, eles terão a minha presidência, mas não terão a nós.

Beatriz sentiu o fôlego faltar. O prazo para o leilão da mansão dos Alencar expirava em poucas horas, e o contrato que deveria ser sua segurança tinha acabado de ser destruído. Rafael tinha acabado de se tornar o homem mais vulnerável de São Paulo, e, pela primeira vez, o perigo parecia a única coisa real entre eles.

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