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Chapter 3: Interesses Emocionais

Beatriz enfrenta o conselho da Viana Holding e a hostilidade da família de Rafael, consolidando sua posição como noiva. Ao investigar o escritório de Rafael, ela descobre uma cláusula sucessória que vincula o passado de seu pai a um segredo sombrio da família Viana, mudando a natureza do contrato de uma simples dívida financeira para uma aliança perigosa.

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Interesses Emocionais

O tilintar dos talheres de prata contra a porcelana da Viana Holding soava como uma contagem regressiva. Beatriz mantinha o queixo erguido, a postura impecável sob a luz difusa do restaurante nos Jardins, embora cada fibra de seu ser estivesse em alerta máximo. À sua frente, os três conselheiros da holding observavam-na como se ela fosse uma peça de maquinário defeituosa que Rafael insistia em manter na linha de produção.

— Uma união repentina, senhorita Alencar — comentou Otávio, o mais velho, pousando a taça de vinho com um estalo seco. — O mercado se pergunta o que uma falência familiar tem a oferecer a um império como o nosso. Rafael sempre foi avesso a laços que não fossem estritamente corporativos.

Beatriz sentiu o peso da rede de intrigas. Ela não era uma noiva para eles; era um ativo em liquidação, uma mancha na imagem de Rafael. O contrato, assinado sob a sombra do leilão da mansão Alencar, era o único escudo que a impedia de perder o último vestígio de sua história familiar em setenta e duas horas.

— O mercado costuma confundir valor com preço, senhor Otávio — ela respondeu, a voz firme, sem vacilar. — Rafael encontrou em mim o que a sua empresa negligenciou: a lealdade de um sobrenome que ainda entende o significado de honra, algo que nem todas as suas planilhas conseguem quantificar.

Um silêncio tenso pairou sobre a mesa. Rafael, que até então observava o embate com uma impassibilidade calculada, inclinou-se levemente, sua mão pousando sobre a de Beatriz. O toque não foi um gesto de carinho, mas uma declaração de posse que fez os conselheiros recuarem. Ele não disse uma palavra, mas o brilho frio em seus olhos era uma ordem silenciosa para que cessassem o escrutínio.

Mais tarde, na varanda, a atmosfera não era menos hostil. Tia Helena, uma mulher cujas joias ostentavam mais peso que sua discrição, bloqueou o caminho de Beatriz.

— É fascinante — sibilou Helena, com um sorriso predatório. — Viana sempre teve um gosto peculiar por projetos de caridade, mas um casamento? Todos sabem que seu pai deixou os cofres vazios. Quanto ele está pagando pela sua performance?

Beatriz sentiu o sangue fugir de suas bochechas, mas antes que pudesse responder, a sombra de Rafael se projetou sobre elas. Ele não se sentou; sua presença era uma barreira física, um muro de autoridade que fez a temperatura da conversa despencar.

— O valor do meu noivado não é uma variável que lhe diga respeito, Helena — a voz de Rafael era baixa, perigosamente calma. — Se a senhora confunde lealdade com leilão, talvez seja hora de reconsiderar sua permanência no conselho. Beatriz é minha escolha, e qualquer insinuação sobre sua dignidade é um insulto direto a mim.

Helena empalideceu e retirou-se sem mais perguntas. Beatriz, porém, sentiu um calafrio. Aquela proteção não era gratuita; era o controle absoluto de alguém que não tolerava que sua propriedade fosse questionada por terceiros.

De volta à mansão, a oportunidade surgiu. Rafael foi convocado por uma crise repentina no conselho, deixando-a sozinha em seu escritório particular. O ambiente exalava o aroma austero de couro e café amargo. Beatriz não era mais a socialite em ruínas; era uma mulher com uma arma silenciosa nas mãos. Seus dedos roçaram a gaveta entreaberta do magnata.

Ela puxou a pasta de couro negro: Cláusula Sucessória – Protocolo Viana-Alencar. Seus olhos percorreram as linhas densas até que um nome saltou da página: o de seu pai. O documento não tratava apenas de ativos financeiros, mas de um erro de cálculo que envolvia uma morte não declarada na família Viana. A obsessão de Rafael pelo controle não era apenas por poder; era o medo de que o passado, enterrado sob contratos e silêncios, viesse à tona.

O clique metálico da porta sendo trancada por dentro a fez sobressaltar. Rafael entrou, desabotoando o paletó com uma lentidão que parecia um cálculo militar. Ele não parecia surpreso ao vê-la com o documento; parecia estar esperando que a curiosidade dela finalmente superasse o medo.

— A curiosidade é um hábito caro, Beatriz — ele disse, a voz desprovida de ameaça, o que a tornava cem vezes mais perigosa. Ele avançou, encurralando-a contra a estante. O calor do corpo dele era uma barreira física. — O que você acha que encontrou? A chave para sua liberdade ou o motivo pelo qual você nunca será livre?

Beatriz manteve o queixo erguido, embora o coração martelasse. Ela agora detinha o segredo que podia destruir o herdeiro, mas, ao olhar para ele, percebeu que o contrato que os unia era apenas a ponta de um iceberg muito mais perigoso do que qualquer leilão imobiliário.

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