A Ascensão Composta
O ar no Santuário de Dados da Ala Leste era um veneno metálico, saturado pelo zumbido de servidores que tentavam purgar a intrusão de Kaelen. A barra de progresso da denúncia contra Mestre Vane oscilava em 78%. Faltavam exatas sete horas e quarenta minutos para o fechamento do Ciclo de Ranking. Se o sistema isolasse o setor antes da conclusão, a prova seria incinerada e a retaliação institucional seria imediata.
— O firewall está se autorregenerando — sibilou Lira, os dedos movendo-se como lâminas sobre o console holográfico. Ela estava pálida, a máscara de herdeira impecável substituída por uma concentração febril. — Se ele isolar este setor, seremos rastreados e apagados.
Kaelen sentiu uma fisgada violenta no peito, o rebote cinético da Técnica do Vácuo cobrando seu preço. Cada fibra de seu corpo parecia feita de vidro sob pressão extrema. Ele não podia recuar; o saldo de méritos estava zerado e a dívida de 400 unidades pendia sobre sua cabeça como uma guilhotina. Ele conectou seu núcleo diretamente à interface. A dor foi um choque elétrico que fez seus meridianos gritarem, mas o fluxo de dados disparou: 92%... 95%... 98%. Quando a barra atingiu 100%, um estalo seco ecoou pelo santuário. A prova estava pública, espalhando-se pelos canais da Academia como fogo em palha seca.
O sistema de segurança entrou em colapso, mas o preço foi o colapso de Kaelen. Ele caiu de joelhos, o sangue escorrendo pelo nariz enquanto a energia da Escada de Prata, agora instável, devorava sua vitalidade interna.
Horas depois, no Mercado das Sombras, o ambiente era um antro de segredos. Kaelen precisava de um Estabilizador de Núcleo. Valerius, o negociante de artefatos de linhagem, exibia um estabilizador pulsante com um sorriso de escárnio.
— O preço triplicou, Kaelen — disse Valerius, bloqueando o caminho. — Dívidas de sangue não se pagam com méritos comuns. Saia antes que eu chame os guardas.
Kaelen não recuou. Ele sabia que o pânico pela denúncia contra Vane já estava paralisando os níveis superiores. Com a voz rouca, ele se aproximou, deixando transparecer o brilho frio de um cristal de memória em sua mão — uma cópia de segurança que atingiria outros patronos do mercado. O blefe funcionou. Valerius, temendo ser o próximo alvo, recuou e baixou o preço. Kaelen adquiriu o item, mas seu saldo de méritos foi reduzido a zero absoluto. Ele estava vivo, mas financeiramente nu.
Na Câmara de Cultivo, ele instalou o estabilizador. O dispositivo não apenas acalmou a energia; ele a devorou, agindo como um parasita. Kaelen percebeu, com um arrepio de horror, que a Escada de Prata não era uma dádiva, mas um mecanismo de extração de vitalidade. Ao tentar absorver a energia, ele sentiu sua própria consciência ser puxada. Ele estava forçando uma evolução perigosa, transformando a pressão em combustível, mas o teto da escada já exigia um sacrifício maior.
Antes que pudesse processar o ganho, as portas da câmara foram derrubadas. Vane estava lá, com o rosto desfigurado pelo ódio, acompanhado por membros do Conselho pressionados pela denúncia pública.
— Você não passa de um erro estatístico — vociferou Vane, sua voz amplificada para toda a arena. — O Conselho exige uma prova de sua legitimidade.
Kaelen sentiu o estabilizador falhar sob a intensidade da pressão. Se ele recuasse, seria desqualificado. Se lutasse, a energia da Escada de Prata consumiria seu corpo por dentro. Diante dos olhares de toda a Academia, ele sentiu o poder bruto da escada explodir em suas veias, forçando-o a uma escolha impossível: recuar e perder tudo, ou forçar uma evolução que poderia matá-lo.