A Escada de Aço
Kaelen desceu os últimos degraus irregulares do túnel úmido com os dentes travados. Cada pisada enviava estilhaços de dor pelas costelas trincadas e pelo antebraço esquerdo, onde as microfraturas do duelo ainda latejavam sob a pele. O selo de restrição nível 3 queimava no centro do dantian como brasa enterrada — trinta por cento de circulação, noventa dias de coleira, e menos de vinte e três horas até a audiência com Valéria na Torre da Ordem. Ele empurrou a porta de ferro corroído do esconderijo improvisado. O espaço era uma reentrância natural alargada à força: paredes de pedra negra suando umidade, catre de palha mofada, lâmpada de qi quase morta. No centro, sobre um pano sujo, os três fragmentos de cristal de ressonância sombria pulsavam com luz roxa doentia.
Sentou-se com um gemido que escapou apesar do esforço. A interface mental que ele mesmo havia construído — runas projetadas no vazio da mente — piscava implacável:
Circulação atual: 29,8 % Tempo até audiência: 22h 47min Compatibilidade núcleo × selo: 31 % Risco de colapso total: 84 % (crescente)
Sem rodeios. Abriu a palma direita e deixou cair o primeiro fragmento na pele. A ressonância sombria reconheceu o eco negro já fundido no dantian e respondeu com um estalo que pareceu partir o esterno ao meio. Dor branca explodiu do peito para os meridianos, como se alguém tivesse enfiado arame farpado pelas veias. O selo de restrição reagiu imediatamente, apertando como uma prensa. Kaelen mordeu o interior da bochecha até sentir sangue; o gosto metálico ajudou a manter a consciência.
Forçou o segundo fragmento contra o primeiro. Outro estalo. A interface tremeu:
Compatibilidade: 42 % Risco de colapso: 91 %
O terceiro veio com um grito que ele engoliu. O dantian convulsionou. Visão escureceu nas bordas. Por um segundo inteiro achou que ia morrer ali, dobrado sobre si mesmo na penumbra. Então, devagar, a barra subiu. 49 %. 53 %. Parou em 57 %. A circulação estabilizou em 54 % — ganho de vinte e quatro pontos percentuais em menos de sete minutos. Mas o preço estava escrito no corpo: sangue escorrendo do canto da boca, veias escuras saltando nos antebraços, respiração rasa e entrecortada.
Desabou de lado, ofegante. O cronômetro mental continuava girando: Tempo restante: 22h 31min.
Ainda recuperando o fôlego, o ar dentro do túnel ficou pesado. O selo de dívida na nuca aqueceu até arder. Uma voz rouca invadiu sua mente sem aviso.
“Menino. O favor foi chamado.”
Kaelen encostou a testa na pedra fria. O Velho Corvo não dava trégua.
“Acabei de sair do mercado,” respondeu mentalmente, voz rouca. “Deixe-me respirar.”
“Respirar é luxo que você não pagou. A dívida de alma não espera. Você deve um serviço. Agora.”
“Qual é o preço dessa vez?”
“Um frasco. Sangue de dragão menor. Pavilhão de Elite, setor de reagentes raros. Você tem até o amanhecer.”
Kaelen fechou os olhos. Invadir o pavilhão com qi limitado a 54 %, corpo destruído e selo de restrição ativo era sentença de morte. Mas a dívida de alma não aceitava negociação; descumprir significava dissolução lenta do dantian.
“E se eu conseguir?”
“Eu apago a dívida. E te dou uma coordenada de entrada que os guardas não vigiam.”
Silêncio. Kaelen sentiu o peso do último fragmento de cristal no bolso. Talvez desse para forçar mais qi com ele.
“Feito,” respondeu. Sentiu o selo registrar o juramento. Uma coordenada queimou na mente: túnel de manutenção abandonado, grade 17-B.
Agora tinha duas contagens regressivas colidindo: Valéria em menos de vinte e duas horas, o Velho Corvo antes do amanhecer, e o duelo do quadragésimo andar em setenta e uma horas.
Arrastou-se pelo túnel de manutenção, cada passo rangendo ossos. A grade 17-B apareceu na penumbra. Pressionou o fragmento restante contra as runas. Elas tremeram, reconheceram a assinatura distorcida e cederam. Entrou de lado, costelas gritando.
O corredor de serviço era estreito, iluminado por esferas mortas. Passos distantes — troca de guarda. Colou-se à parede, esperou, depois avançou mancando até a porta de armazenamento. Selo mais complexo. Usou o fragmento rachado. A fechadura cedeu com um clique baixo.
Dentro, prateleiras de frascos selados. Encontrou o sangue de dragão menor na terceira prateleira: frasco de cristal negro, selo vermelho pulsando. Pegou-o.
Ao virar para sair, o pé roçou um fio quase invisível. Sensor secundário. Um zumbido quase inaudível começou.
Correu. Costelas rasgando, antebraço sangrando de novo. Escapou pela grade por segundos, deixando traços mínimos de qi sombrio.
De volta à superfície, deixou o frasco no ponto de coleta combinado — uma rachadura marcada na base de uma estátua quebrada. Sentiu a dívida de alma se dissolver como fumaça. Alívio momentâneo.
Mas ao erguer os olhos, viu a silhueta alta bloqueando a passagem estreita entre os pilares da arena secundária.
Dante.
A lâmina curva de ébano já estava desembainhada, ponta tremendo de controle forçado.
— Achou mesmo que ia sair andando depois de humilhar o Rafael na frente de todo mundo? — A voz saiu baixa. — Depois de sair da Torre da Ordem como se fosse intocável?
Kaelen parou. Sangue pingava ritmado do antebraço no concreto. Qi instável após a fusão forçada, selo queimando, corpo inteiro gritando para deitar.
— Não vim atrás de você, Dante.
— Mas eu vim atrás de você.
Dante avançou. A lâmina desceu em arco preciso, mirando o ombro esquerdo já comprometido. Kaelen desviou por instinto, o pico temporário de ressonância sombria dando velocidade que ele não deveria ter. A lâmina raspou ar. Ele contra-atacou com palma aberta, canalizando o qi instável em uma explosão de eco negro concentrado.
O impacto jogou Dante dois passos para trás. A lâmina tremeu na mão dele. Pela primeira vez, Kaelen viu dúvida real nos olhos do prodígio.
Passos ecoaram ao redor. Alunos noturnos surgiam nas laterais da arena secundária, atraídos pelo choque de qi. Vozes começaram a subir.
— É o Kaelen…
— Ele acertou o Dante…
Dante respirou fundo, recompôs a postura. Mas o tremor na lâmina não parava.
Kaelen ficou de pé, ofegante, sangue escorrendo, interface mental piscando:
Circulação atual: 51 % (decaindo) Risco de colapso: 67 %
E então ouviu.
Primeiro um nome isolado. Depois vários.
“Kaelen.”
“Kaelen!”
A multidão pequena, mas crescendo, gritava seu nome pela primeira vez.