Leilão de Sangue e Aço
Kaelen empurrou a porta enferrujada do Pavilhão Cinzento com o ombro. O cheiro de incenso rançoso e suor azedo o acertou como um soco. Dezoito cristais médios queimavam no bolso interno — tudo que restara do penhor do pingente de prata da mãe. No pulso, o cronômetro de qi piscava: setenta e uma horas e cinquenta e dois minutos até o duelo direto contra o quadragésimo andar.
Sem o núcleo de energia, o vínculo permanente não aguentaria a pressão. Ele seria esmagado em público e arrastado para as minas. Dívida de cultivo não perdoava.
Dante já ocupava o mezanino VIP, leque de jade girando devagar entre os dedos. Seus olhos encontraram Kaelen e o sorriso veio lento, venenoso.
— O mendigo trouxe os trocados da mamãe? — A voz cortou o burburinho.
Kaelen não respondeu. Marchou até o balcão. O atendente de bigode fino nem ergueu o olhar.
— Entrada comum: três cristais. VIP: quinze.
Kaelen deslizou uma moeda de cobre gasta, palma virada no ângulo exato que o tio morto lhe ensinara. O tilintar soou mais rico do que era.
— Esta vale dezoito no submundo. Troca por VIP temporária. Só até o primeiro lote do núcleo.
O atendente mordeu a moeda, olhou para Dante, depois para Kaelen. Um riso baixo veio de cima.
— Deixa o rato subir, Tio Ming. Quero ver quanto tempo aguenta.
Ming acenou. Kaelen subiu as escadas sem olhar para trás.
No mezanino, o leiloeiro ergueu o primeiro estojo.
— Lote 17. Cristais de eco vazio. Lance inicial: três cristais médios.
Kaelen ergueu a mão.
— Quatro.
Dante inclinou a cabeça, divertido.
— Cinco.
— Sete.
— Dez.
— Quinze.
O salão começou a prestar atenção. Kaelen manteve o rosto impassível. Aqueles cristais não eram inúteis. Eram a chave para onze segundos de eco falso — tempo suficiente para um golpe surpresa no duelo. Dante não precisava saber.
— Vinte — disse Dante, voz preguiçosa.
Kaelen deixou os ombros caírem meio grau, exatamente o ângulo de quem sente o chão sumir. Mostrou o desespero que o rival queria ver.
— Vinte e um.
Dante bufou.
— Trinta.
O martelo caiu.
— Vendido ao jovem mestre Dante por trinta cristais médios!
Risadas esparsas. Dante voltou a atenção para o próximo lote como se tivesse esmagado um inseto. Trinta cristais queimados em lixo que ele nunca saberia usar. Kaelen sentiu o peito aliviar um milímetro. Espaço. Espaço para o verdadeiro golpe.
Do camarote elevado, Mestra Valéria observava em silêncio. Lentes frias refletiam a luz dos globos de qi. Seus lábios não se moveram. Mas os olhos diziam tudo.
O leiloeiro anunciou o lote principal.
— Lote 42. Núcleo de energia de terceira camada, disfarçado como fragmento de eco negro. Lance inicial: doze cristais médios.
Kaelen esperou três lances mornos. Então ergueu a placa.
— Dezoito.
Silêncio absoluto. Ninguém mais ofereceu. O martelo caiu.
— Vendido ao cultivador Kaelen por dezoito cristais médios!
O núcleo frio foi colocado em suas mãos. Pesado. Zumbindo. Energia proibida pulsava contra a palma, faminta, perigosa. Com ele, poderia empurrar o vínculo permanente além do trigésimo andar. Talvez ameaçar o vigésimo. O ganho era visível, mensurável. Mas o custo ainda viria.
Dante virou o corpo inteiro. O sorriso desaparecera. Apenas ódio puro restava.
Kaelen guardou o núcleo sob a capa surrada e desceu a escadaria lateral. Os corredores estreitos cheiravam a mofo e derrota. Passos leves ecoaram atrás. Ele não virou a cabeça.
Uma silhueta mascarada bloqueou a passagem. Manto cinza, capuz baixo.
— Mestra Valéria envia cumprimentos.
O mensageiro estendeu um papel selado com cera preta. Kaelen quebrou o selo.
A letra era dela, reta e sem ornamento:
“Parabéns pela aquisição, aluno Kaelen. O núcleo foi liberado exatamente porque sabíamos que você viria. Use-o antes do duelo e o vínculo será rastreado em menos de uma hora. Use-o durante o duelo e será considerado artefato externo — desclassificação e servidão nas minas. Guarde-o e permanecerá no último andar, sem margem.
A Academia sempre oferece escolhas.
Valéria.”
Kaelen dobrou o papel devagar. O núcleo queimava contra o peito, quase insolente. Setenta e uma horas e quarenta e um minutos.
Tudo que ele fizera — a humilhação calculada, os cristais gastos até o osso, o orgulho de Dante sangrando recursos — tinha sido permitido. Orquestrado.
Valéria não estava apenas vigiando o erro estatístico.
Do alto do camarote, ela sorriu.
Ela não estava apenas assistindo ao leilão; estava armando uma armadilha.
Kaelen apertou o núcleo contra as costelas. A energia proibida já começava a percorrer suas veias. Mas seus ossos deram o primeiro estalo sutil, um aviso frio de que o preço ainda não havia sido pago por inteiro.
E o duelo no quadragésimo andar esperava.