O Custo do Salto
Kaelen desceu os degraus úmidos do Beco das Sombras com o frasco de resíduo prateado queimando na palma. Acima do obelisco central, o cronômetro flutuante marcava 94:47:11 até o fechamento do ciclo. Noventa e quatro horas para pagar a taxa de manutenção do dantian ou aceitar o bloqueio automático e a servidão nas minas de quartzo negro.
O Mercador Cinzento esperava na terceira reentrância, capuz baixo, dois vigias de rank médio fingindo barganhar numa banca ao lado.
— Trouxe o eco? — perguntou o homem, voz rouca.
Kaelen abriu a mão. O frasco brilhou fraco, resíduo volátil da técnica proibida que o artefato de obsidiana destruído havia cuspido no teste anterior.
O Cinzento girou o vidro, inalou o cheiro metálico e franziu o nariz.
— Devorador de Ébano. Terceira proibição. Assinatura de artefato queimado. Setenta cristais baixos. Nem um a mais.
— Oitenta e cinco — rebateu Kaelen. — Você refina isso em um dia e triplica o valor nos círculos internos.
— Oitenta. E só porque não quero ver você arrastado para as minas na minha porta.
Os vigias se aproximaram um passo. Kaelen sentiu o peso dos olhares como lâminas na nuca. Pensou na mãe na vila distante, no pingente de prata que já não carregava no peito. Pensou na dívida que, se não paga, transformaria seu nome em ferramenta de extração.
— Fechado.
Oito pilhas de dez cristais baixos opacos caíram em sua mão. Mal chegavam a noventa e dois, o valor exato da taxa pendente. Ele guardou tudo sem conferir e saiu antes que o obelisco atualizasse novamente.
94:39:08
O ganho era visível: crédito suficiente para manter o ranking por mais um ciclo. O custo, também: o último resíduo da técnica banida fora embora, e o vazio no peito crescia.
Kaelen subiu até a Torre da Ordem com os cristais pesando menos que a sensação de ser observado. A porta da Sala de Auditoria se abriu antes que ele tocasse. Mestra Valéria estava de pé, tomo aberto exibindo o gráfico de fluxo de qi dele — linha que saltara de 0,7 para 1,4 em um único teste.
— Sente-se, Kaelen de Lira Baixa.
Ele sentou. O assistente segurava o orbe de varredura, luz verde pálida.
— Seu salto foi… notável — disse Valéria, voz macia como seda sobre aço. — Explique.
— Treinei mais forte. Ciclos noturnos duplos. Quando o medidor quebrou, continuei manualmente.
Valéria ergueu uma sobrancelha.
— Mostre.
Kaelen estendeu a palma e circulou o qi devagar, controlado, exatamente o que um terceiro estágio mediano sustentaria. O orbe permaneceu verde. Estável.
Valéria fechou o tomo com estalo.
— Interessante. Seu histórico diz que você mal aguentava um ciclo sem desmaiar. Agora sustenta. E pagou a taxa em dia. Com o quê?
— Vendi o que tinha.
Ela se aproximou da janela estreita. Lá embaixo, discípulos de elite trocavam rajadas coloridas de qi.
— Meios não autorizados levam às minhas minas, Kaelen. Mas sou justa. Prove seu esforço no teste de combate direto, daqui a setenta e duas horas. Você enfrentará alguém do quadragésimo andar. Sem muleta.
Kaelen sentiu o estômago gelar. Setenta e duas horas para preparar um duelo público onde perdedor caía cinco posições ou era cortado.
— Entendido.
Ao sair, a voz dela o alcançou:
— Se eu descobrir que mentiu, não haverá próxima taxa.
No corredor, o ar pesava. O ganho provisório do resíduo vendido agora parecia fumaça. Valéria não acreditava. E Dante, em algum lugar acima, já devia estar rindo.
A Praça do Obelisco
A praça fervia quando Kaelen chegou. O quadro de cristal negro pulsava com o anúncio:
Teste de Ascensão III – Duelo Direto Arena Pública – 72 horas Sem artefatos externos (exceto vínculo de alma permanente) Vencedor sobe 3 posições. Perdedor desce 5 ou é cortado.
Rian, o garoto de cabelo raspado, cutucou seu braço.
— Carnificina de verdade, quase-lendário.
Kaelen leu as restrições. O reforço de meridiano roubado do obsidiana não valia como vínculo permanente. Sem artefato, seu novo patamar de qi voltava a ser insuficiente contra um quadragésimo andar.
Do outro lado, Dante encostado numa coluna de mármore negro ergueu a sobrancelha e fez o gesto lento de polegar para baixo. O riso baixo cortou o burburinho como faca.
Kaelen não sustentou o olhar. Cada segundo perdido era um cristal a menos. Ele precisava de pelo menos oitocentos cristais médios para uma pílula de reforço de meridiano nível médio e suborno para não ser reconhecido no mercado paralelo.
Tinha quarenta e sete.
Alguém atrás murmurou:
— O azarão já vendeu tudo. Vai cair feio.
Kaelen apertou os punhos e seguiu para a Casa de Penhores Cinzentos. A última opção.
A Última Prata
O sino enferrujado tilintou. Vitor ergueu os olhos cansados.
— Voltou. Achei que ia vender o ar primeiro.
Kaelen depositou o pingente de prata no balcão. Lua crescente gravada, corrente fina. Última lembrança da mãe.
Vitor examinou, pesou.
— Treze cristais médios. Não tem qi, não tem bênção ativa.
— Preciso de dezoito. O duelo é em setenta e duas horas. Sem a taxa mínima, desclassificação direta.
— Quinze. É o que consigo revender sem prejuízo.
Kaelen sentiu a garganta arder. Viu a mãe segurando o mesmo pingente contra o peito tossindo. Viu seu nome tremendo na zona vermelha do obelisco.
— Dezoito. Fica com a corrente também.
Vitor suspirou, pesou novamente e contou dezoito cristais médios. Frios. Definitivos.
Kaelen fechou a mão em torno deles. O peito agora estava vazio onde o metal costumava pesar.
Ao sair, o céu artificial dourava falso. No camarote flutuante principal, Mestra Valéria observava. Não o pátio inteiro. Apenas ele.
Seus lábios se curvaram num sorriso fino. Ela não assistia. Armava.
Kaelen apertou os cristais até doer. Tinha transformado o resíduo em crédito de permanência. Tinha transformado o pingente em chance de duelo. Mas cada degrau subido revelava uma escada mais íngreme.
Setenta e duas horas. Oitocentos cristais ainda faltando. E os olhos da Guardiã cravados em suas costas.
Agora não havia mais rede de segurança.