Sucata de Ouro, Dívida de Aço
O cronômetro holográfico sobre a bancada da garagem projetava um vermelho doentio: 02:14:12. Menos de três horas para a inspeção oficial do Proving Ground. Se o Lixo — o mecha de família que servia como sustento e vergonha — não apresentasse uma leitura de reatividade estável, seria confiscado como sucata e a licença de manutenção da família seria revogada.
— Ele não vai ligar, Kael. Desiste — a voz de Elara era um sussurro seco, carregada pela resignação de quem já havia enterrado muitas esperanças. Ela limpava o óleo das mãos com um pano encardido, evitando olhar para o chassi esquelético do frame à frente deles.
Kael não respondeu. Estava enfiado na cavidade torácica do mecha, os dedos calejados tateando fios desfiados e placas de blindagem corroídas. O metal estava frio, uma carcaça morta que pesava sobre suas costas como uma dívida impagável. O sistema de ranking do setor não perdoava fraqueza; se ele não provasse o valor daquela máquina hoje, o Enforcer da facção local não apenas levaria o frame, mas garantiria que Kael fosse banido das docas de reparo permanentemente. Ele conectou o terminal de diagnóstico manual, um dispositivo barato que mal processava os dados. O monitor piscou, exibindo uma cascata de erros em âmbar.
— Só preciso de uma resposta do motor de ignição — Kael murmurou, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Se ele girar uma vez, eu consigo o crédito para a auditoria.
Ele saiu da garagem e seguiu para o mercado de seitas de Nova Esperança, um lugar que cheirava a ozônio e desespero. O peso do Lixo latejava em sua mente. O cronômetro no visor de seu pulso marcava menos de duas horas. A atmosfera mudou bruscamente quando o som de botas magnéticas ecoou pelo convés de metal. O Enforcer, um homem cujas cicatrizes no rosto pareciam desenhadas por lâminas de alta precisão, bloqueou o caminho de Kael. Atrás dele, dois guardas carregavam scanners de pulso, prontos para classificar qualquer peça de valor como propriedade do Estado.
— O lixo de hoje fede mais que o de ontem, Kael — o Enforcer sibilou, o desdém pingando de cada sílaba. Ele apontou para o frame, estacionado em um canto sombrio da doca. — Acha mesmo que essa carcaça enferrujada vai passar pela auditoria? O mercado não precisa de sucata. Precisa de eficiência.
Kael sentiu o sangue ferver, mas forçou a calma. Ele sabia que qualquer reação agressiva seria o pretexto para o confisco. O segredo que ele descobrira minutos antes — a assinatura energética latente nas entranhas do Lixo — era sua única moeda de troca. Ele não era sucata. Era algo muito mais perigoso.
O ar no Proving Ground cheirava a ozônio queimado. Kael sentiu o impacto do metal contra o concreto quando o Lixo finalmente estabilizou o núcleo. O monitor de diagnóstico, antes um mar de erros críticos, piscava agora com uma luz âmbar persistente. No centro do visor, um log de batalha, corrompido por décadas de estagnação, começou a se desenrolar em linhas de código que não deveriam existir em um modelo de sucata.
— Kael, desliga isso! — A voz de Elara cortou o barulho dos ventiladores. Ela estava parada na borda da plataforma, as mãos trêmulas agarradas ao avental sujo de graxa. — O Enforcer está vindo. Se ele vir esse sinal, não vai apenas levar o frame. Ele vai levar tudo o que nos resta.
Kael não respondeu. Seus olhos estavam colados na tela. O log não mostrava apenas falhas; mostrava uma assinatura de energia protótipo, uma tecnologia de classe militar escondida sob a carcaça enferrujada. Era o elo perdido, o ganho mensurável que ele precisava para subir na escada social da seita. Ele tocou o terminal, forçando o acesso ao módulo. O frame estremeceu, emitindo um zumbido grave que fez os espectadores próximos recuarem. Um sinal proibido, de alta frequência, começou a pulsar no console, revelando que a sucata não era lixo, mas um protótipo de elite enterrado em segredo. O Enforcer parou na entrada da doca, seus olhos fixos na luz azulada que emanava do peito do mecha. O jogo de sobrevivência havia acabado; a prova pública estava prestes a começar.