Novel

Chapter 3: A Sombra de Tiago

Lucas confronta a realidade da traição interna após a mensagem de Tiago, descobrindo que a demolição é uma manobra para apagar provas do fundo comunitário. Ele é forçado a escolher entre sua distância segura e o papel de fiador da rede, enquanto as máquinas iniciam a destruição do bairro.

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A Sombra de Tiago

O ar no escritório do meu pai cheirava a naftalina e a uma burocracia esquecida que, agora, queimava sob meus dedos. O celular antigo, um modelo de teclas que parecia um peso morto na palma da mão, vibrou pela terceira vez. A voz de Tiago, distorcida pela estática, não era um pedido de desculpas. Era uma sentença.

Eles não te contaram, Lucas, porque não querem que você saiba quem está com a mão no seu pescoço. O fundo não sumiu. Ele foi confiscado de dentro, peça por peça, para garantir que a demolição parecesse um negócio legítimo. Se você abrir esse caderno, vai ver nomes que você chama de família. — A voz dele falhou, abafada pelo som metálico de algo sendo arrastado. — Não tente me achar. Tente sobreviver ao que vem a seguir.

Desliguei o aparelho. O silêncio do escritório tornou-se agressivo. Abri o caderno de remessas sobre a mesa. As colunas de nomes, que antes pareciam apenas um registro contábil antiquado, agora se revelavam como um mapa de lealdades fraturadas. A imobiliária não estava apenas comprando o bairro; eles estavam usando as pessoas que, por anos, haviam sido protegidas pela rede que meu pai sustentava. A traição não vinha de fora. Vinha do próprio sangue.

Saí para o beco central, onde o sol batia no asfalto como um martelo. O ar era denso, carregado de uma umidade que cheirava a poeira e descaso. Caminhei em direção aos vizinhos que conversavam perto do portão de metal, o caderno escondido sob a jaqueta. Bastou minha aproximação para que a conversa cessasse. O silêncio não era de reverência, mas de fechamento. Rostos que eu reconhecia da infância — homens de mãos calejadas e mulheres de olhar afiado — viraram-se, erguendo uma barreira invisível.

— Preciso falar com alguém que conhecia as movimentações do fundo — disse, minha voz soando artificialmente polida. — Tiago não agiu sozinho. Alguém facilitou o acesso da imobiliária.

Um homem mais velho cuspiu no chão e desviou o olhar. Minha arrogância cosmopolita, que antes me servia como armadura, agora parecia um insulto à miséria que me cercava. Dona Alzira surgiu de um corredor lateral, a postura ereta, segurando uma pequena bolsa de couro gasta. Ela não parecia uma vizinha, mas uma sentinela.

— O seu pai sabia guardar segredo, Lucas. Talvez você devesse aprender o mesmo — ela disse, a voz rouca cortando o ar. — Você quer respostas? Olhe para os fundos. Mas saiba que, neste bairro, quem procura a verdade acaba encontrando o próprio túmulo.

Não esperei. Segui para o beco lateral, o cheiro de reboco úmido impregnando minhas roupas. Apertei a chave mestra de ferro forjado no bolso, o metal frio contra a coxa. Um vulto se moveu na penumbra, perto das caçambas de entulho. Era Tiago. O moletom encardido, o capuz puxado. Quando o chamei, ele não demonstrou alívio, mas um terror absoluto. Ele não fugia de mim por desdém, mas como quem foge de um executor.

— Você não deveria ter voltado — Tiago sussurrou, os olhos injetados varrendo as sombras. — Eles estão olhando para você agora. Você é o novo alvo. O fundo foi drenado por quem jurou protegê-lo.

Antes que eu pudesse questionar, um barulho metálico ecoou na rua principal. O ronco das máquinas de demolição. Elas não esperaram os prazos legais; a pá mecânica começou a morder a lateral do cortiço, ignorando gritos e avisos. Dona Alzira apareceu ao meu lado, observando a poeira subir como um sudário sobre a história do bairro.

— Estão adiantando o serviço — ela disse, sem emoção. — Sabem que, se derrubarem a estrutura principal, os registros do fundo perdem a validade de prova. É a queima de arquivo em forma de concreto.

Senti o peso do caderno contra o peito. A imobiliária estava apagando a evidência de que aquele organismo vivo que sustentava as famílias ali existia. Olhei para as máquinas, depois para Dona Alzira, que me encarava com um desafio silencioso.

— Isso é ilegal, Alzira — comecei, mas ela me interrompeu com um olhar que não admitia desculpas.

— A lei aqui é escrita por quem tem o martelo, Lucas. Você vai assistir ou vai ser o fiador dessa gente?

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