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Chapter 2: O Caderno de Remessas

Lucas acessa o escritório do pai e descobre um caderno de remessas que revela a existência de um fundo de proteção comunitária, agora drenado e sob ameaça da imobiliária. Dona Alzira confronta Lucas sobre sua responsabilidade, enquanto uma mensagem de voz de Tiago confirma que o fundo foi confiscado por alguém de dentro da rede.

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O Caderno de Remessas

A chave mestra de ferro forjado pesava na palma de Lucas como um peso morto. O metal, frio e denso, parecia vibrar contra sua pele enquanto ele a inseria na fechadura da porta dos fundos. O mecanismo cedeu com um estalo seco, uma resistência mecânica que soou como uma advertência. A casa não estava apenas vazia; estava em suspenso, retendo o ar de uma vida que ele tentara apagar da própria biografia.

Lucas acendeu a luz do escritório. O ambiente era um cubículo sufocante, atulhado de papéis que cheiravam a tabaco, umidade e decisões adiadas. Ele não viera para investigar memórias; viera para liquidar o inventário, fotografar o que restava e entregar as chaves para a imobiliária que já rondava o bairro como um abutre. O plano era cirúrgico: entrar, catalogar, sair. Mas o assoalho de peroba rangeu sob seus sapatos de couro italiano, um protesto que vibrou até a sola dos seus pés. Ele pisou novamente, testando. A tábua cedeu um centímetro, revelando um vão escuro. Com o canivete que carregava no bolso, forçou a madeira. O pedaço soltou-se com um ruído úmido, expondo um caderno de capa de couro rachada, amarrado com um barbante desfiado.

Sentado no chão, à luz fraca do celular, Lucas abriu o objeto. As páginas não continham extratos bancários, mas colunas de nomes, datas e valores. “Seu Zé da quitanda”, “Dona Neuza do salão”, “família do portão azul”. Ao lado de cada nome, uma letra maiúscula: P. de Proteção. O estômago de Lucas deu um solavanco. Ele reconhecia aqueles rostos. Eram as pessoas que lhe ofereciam café e pão quando sua mãe sumia; eram as mesmas mãos que ele, por anos, tentou esquecer ao se enterrar na vida cosmopolita de São Paulo. O dinheiro não era investimento; era um fundo de sobrevivência. O pai não era um poupador, era o fiador de uma rede invisível que mantinha o bairro longe da especulação imobiliária. E agora, o saldo estava negativo em quarenta mil reais. A última entrada, de três semanas atrás, trazia a caligrafia apressada de Tiago: "R$ 8.500 — proteção contra a imobiliária". Um risco vermelho cortava a página, como uma ferida aberta.

— O senhor não tem o direito de tocar no que ainda é o nosso fôlego, menino.

A voz de Dona Alzira cortou o silêncio como um bisturi. Ela estava parada no limiar do escritório, bloqueando a luz do entardecer. Seus olhos, endurecidos por décadas de luta contra o apagamento do bairro, fixaram-se no caderno nas mãos de Lucas. Ele tentou se levantar, mas a autoridade dela o manteve ancorado ao chão.

— Isso não é seu, Alzira. É herança — Lucas rebateu, a voz falhando.

— Herança? Você chama de herança o que seu pai construiu com o suor de quem não tinha onde cair morto? — Ela avançou, a postura rígida de quem guardava um segredo muito maior que a propriedade. — A imobiliária sabe dos nomes desse caderno. Eles estão comprando casa por casa, usando as dívidas que seu pai carregava nas costas para expulsar os donos. Você não está aqui para vender uma casa, Lucas. Você está aqui para decidir se vai entregar a cabeça de quem te viu crescer ou se vai assumir o que ele deixou cair.

Ela saiu, deixando o vácuo de sua presença carregado de uma pressão que Lucas não sabia como nomear. Ele ficou ali, o caderno tremendo em suas mãos, até que o celular sobre a bancada vibrou, rompendo o silêncio. Um nome na tela: Tiago. O elo perdido da família, o homem que todos julgavam ter fugido com o fundo. Lucas tocou no ícone de áudio. A voz do primo surgiu, baixa, cortada por um estático que parecia vir de muito longe.

— Lucas, se você está ouvindo isso, é porque o assoalho cedeu. Não venda nada. O fundo não sumiu, ele foi confiscado de dentro. Eles estão usando o nosso próprio nome para nos tirar daqui.

O som da voz de Tiago morreu, mas o peso da revelação permaneceu, pulsando como um batimento cardíaco no peito de Lucas. Ele olhou para a lista de nomes no caderno; não eram mais apenas palavras, eram rostos vivos, e ele era o único que ainda segurava a chave.

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