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Chapter 2: O Preço da Informação

Lucas sacrifica sua identidade institucional para obter a localização dos microfilmes que compõem o Livro-Razão Negro, descobrindo que Helena deixou uma trilha deliberada que o coloca sob vigilância direta dos Alcântara.

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O Preço da Informação

O ar no bar da Mooca era uma mistura espessa de gordura de fritura e o cheiro metálico de desespero. Lucas Viana não estava ali por acaso; ele estava ali porque o sistema de segurança dos Alcântara já tinha seu nome em uma lista de eliminação. Faltavam 120 horas para que a purga total — a limpeza definitiva dos registros de Helena — fosse concluída. O tempo não era apenas um contador; era uma sentença de morte que ele carregava no bolso.

O Inspetor Mendes estava sentado no fundo, as mãos grossas escondidas sob a fórmica gasta. Ele não parecia um policial; parecia um homem que vendia segredos para pagar dívidas de jogo. Quando Lucas se aproximou, Mendes não levantou os olhos, apenas apontou para a cadeira vazia com o queixo.

— Você está sujo, Viana — murmurou Mendes, a voz rouca, quase inaudível sob o zumbido de um ventilador que lutava contra o calor. — O sistema de segurança da família Alcântara disparou um alerta vermelho sobre o seu nome há três horas. Você não é mais um arquivista. Você é um alvo.

Lucas sentiu o sangue gelar, mas manteve a postura. Ele retirou o pen drive do bolso interno do casaco, sentindo o peso do metal. Ali estavam metadados parciais, o rastro digital que ele conseguira extrair da cobertura de Helena antes da invasão.

— Eu não vim aqui para falar sobre o meu status — Lucas respondeu, empurrando o dispositivo sobre a superfície pegajosa. — Vim pelo cofre. Onde estão os arquivos de 2018?

Mendes riu, um som seco que não atingiu seus olhos cansados. Ele não pegou o pen drive de imediato.

— O preço subiu, Lucas. Os Alcântara têm agentes em todos os andares da delegacia. Se eu te der essa chave, eu perco minha pensão e minha vida. Quero o seu histórico funcional. O acesso limpo. A sua ficha como servidor público. Se eu tiver isso, posso apagar seus rastros do sistema deles, mas você deixa de existir para o Estado. Você vira um fantasma.

Lucas hesitou. Entregar sua ficha era abrir mão de sua última camada de proteção institucional, a única coisa que o impedia de ser preso como um criminoso comum. Mas Helena não tinha tempo. Ele empurrou o dispositivo e, em seguida, digitou a senha de acesso irrestrito em um tablet que o inspetor deslizou pela mesa. O sacrifício estava feito. Mendes entregou um papel amassado com um endereço na antiga ala de microfilmes da Delegacia de Crimes Financeiros.

— Não é um livro, Viana — Mendes avisou, levantando-se. — Se você for lá, não olhe para trás. Eles já estão na sua cola.

Ao sair do bar, a umidade da Mooca parecia grudar na pele como óleo. Lucas sentiu o peso da chantagem. Ao dobrar a esquina da Rua Visconde de Laguna, o brilho avermelhado de um cigarro aceso no interior de um sedã preto o paralisou. O carro estava parado em um ponto cego, sem faróis, com o motor em marcha lenta. Dois homens. A imobilidade treinada de quem não espera por um amigo, mas aguarda uma ordem. Eles sabiam que ele estava ali.

Lucas não olhou para trás. Ele virou bruscamente em um corredor lateral, um atalho entre dois sobrados decadentes. O som de portas de carro se abrindo ecoou no asfalto. Ele correu, os pés batendo pesado contra o chão irregular. Precisava de distância. Ele usou o conhecimento das ruas, atravessando uma saída de serviço de um prédio comercial, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Quando finalmente chegou ao seu apartamento na Liberdade, ele estava ofegante, as mãos trêmulas.

Ele não acendeu a luz. Sentou-se diante do monitor, o brilho refletindo em seus olhos enquanto o contador marcava 120 horas. Conectou o pen drive. O arquivo de áudio, oculto sob camadas de criptografia que Helena havia deixado, carregou com um estalido estático. A voz dela preencheu o silêncio, nítida e urgente.

— Lucas, se você está ouvindo isso, o sistema já me encontrou — a voz de Helena tremia, não de medo, mas de uma determinação fria. — O Livro-Razão não é papel. Eles nunca confiariam em algo que pudesse ser queimado. Eles usam o arquivo morto da Delegacia de Crimes Financeiros. Procure o símbolo da alcateia, o selo que meu pai usa para marcar o que não pode ser destruído.

A revelação atingiu-o com a força de um soco no estômago: o 'Livro-Razão' era uma coleção de microfilmes, fisicamente armazenados no coração da burocracia que ele, até poucas horas atrás, considerava seu refúgio profissional. Helena havia planejado tudo. Lucas compreendeu então que o microfilme mais importante estava marcado com o símbolo dos Alcântara. Eles iam queimar tudo em cinco dias, e ele era o único que sabia onde a prova estava escondida. O cerco estava fechando, e ele acabara de entregar a única chave que o mantinha seguro para conseguir uma pista que poderia ser sua sentença de morte.

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