O Protocolo de Apagamento
O relógio de pulso de Lucas Viana marcava 03:14 da manhã, mas em sua cabeça, o tempo era uma contagem regressiva de 144 horas. Ele estava agachado no corredor de serviço da cobertura dos Alcântara, nos Jardins, com o ar condicionado central sibilando como uma serpente. A porta estava entreaberta — um erro técnico que gritava por socorro. Helena nunca deixava uma fresta. Helena nunca deixava nada ao acaso.
Ele empurrou a porta com a ponta do sapato. O luxo do apartamento era uma ofensa: o mármore frio, o cheiro de lírios frescos e o silêncio absoluto de uma vida que fora apagada entre o jantar e o café da manhã. A bolsa Hermès de Helena estava jogada sobre o sofá de couro branco, o zíper aberto, o conteúdo revirado. O celular dela, um modelo de segurança, jazia ao lado. A tela estava trincada, a bateria em 4%.
Lucas pegou o aparelho. Seus dedos tremiam. Ele não era um herói; era um arquivista que conhecia as brechas do sistema, e ele sabia que, ao tocar naquele dispositivo, estava assinando sua própria sentença de exclusão social. Ele abriu o arquivo de áudio. A voz de Helena era um sussurro, quase engolida por estática.
— Eles estão limpando o rastro, Lucas. O Livro-Razão não pode ser a última coisa que eles tocam. Se você estiver ouvindo isso, não deixe que eles vendam o arquivo antes de... — O áudio cortou. O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som distante de uma sirene.
Ele não tinha tempo para o luto. O porteiro já registrara sua entrada; o sistema de segurança da família já o havia catalogado. Ele precisava da prova antes que o servidor fosse formatado.
Dez minutos depois, em uma lan house na Liberdade, o brilho azulado de um monitor barato refletia-se em seus olhos. O cheiro de ozônio de hardware sobrecarregado era o único conforto. Lucas inseriu a chave de criptografia que Helena lhe enviara meses antes, um segredo que ele guardara como uma arma carregada. As credenciais de arquivista, teoricamente revogadas, brilharam por um instante, permitindo o acesso remoto à base de dados da Delegacia de Crimes Financeiros de Elite.
O sistema era um labirinto, mas ele conhecia os atalhos. Enquanto navegava, viu a purga ocorrer em tempo real: arquivos de 2023 sendo deletados por um script automatizado. Ele encontrou o log de Helena: entrada no edifício da família às 18:42, sem registro de saída. Ele extraiu um frame de vídeo de segurança interno. A imagem era granulada, mas inegável: Helena sendo escoltada por dois homens sem identificação, com o rosto forçado para baixo. Ela não fugira. Ela fora removida.
O cursor travou. O monitor exibiu um aviso: 144:00:00. O relógio da purga havia começado. Lucas precisava do metadado que ligava aquele vídeo ao 'Livro-Razão Negro'. Ele clicou no download. A barra de progresso rastejou: 20%, 45%, 70%...
De repente, a tela piscou e o brilho azulado tornou-se um vermelho agressivo. Uma janela de erro saltou, sobrepondo-se ao arquivo: Acesso não autorizado – Protocolo de Apagamento de Dados sensíveis em curso. Identidade rastreada. Não tente novo acesso.
O coração de Lucas martelou contra as costelas. O sistema não apenas o bloqueou; ele o marcou. No último vislumbre antes da tela congelar, ele viu a definição do alvo: 'Livro-Razão Negro' não era um livro, mas uma série de microfilmes escondidos sob o nariz da polícia. Lucas arrancou o pen drive, o suor escorrendo pelos olhos. Ele era agora um alvo direto, e o relógio da família Alcântara acabara de começar a correr contra ele.