O Santuário de Vidro
O relógio de pulso de Elias vibrou contra o osso do rádio, um lembrete elétrico que ele não podia ignorar: 120 horas. O visor digital, um corte de luz azul sob a manga, não apenas contava o tempo; ele o devorava. A morte de Júlio, o técnico que ele sacrificara na noite anterior, ainda pesava como chumbo em seu estômago. O sacrifício comprara apenas uma verdade amarga: a Fundação Valente não estava apenas protegendo um segredo, estava preparando uma sucessão forçada.
Elias observava o Santuário de um beco úmido, onde o cheiro de incenso barato se misturava à maresia da cidade-santuário. A procissão de velas serpenteava as ruas de paralelepípedos como uma cicatriz de fogo. Para os fiéis, era devoção; para os homens de Valente, era a cortina de fumaça perfeita para uma purga social. Elias precisava entrar no subsolo, onde o servidor central exigia a assinatura biométrica de Beatriz. Sem ela, o Livro Negro permaneceria trancado, e a herdeira, apagada da história.
Ele se misturou à multidão, sentindo o peso dos olhares dos seguranças que varriam o público. O receptor improvisado em seu bolso aqueceu contra sua coxa, captando um pulso errático. O sinal era fraco, mas inconfundível. No centro do cortejo, um segurança de terno impecável — o mesmo que o confrontara na gala — travou o olhar nele. O reconhecimento foi instantâneo e gélido. Elias não recuou; ele se deixou levar pelo fluxo dos fiéis, desviando-se por uma fresta no muro de pedra que dava acesso aos dutos de serviço da fundação. O segurança acelerou, abrindo caminho entre as mulheres que rezavam, mas Elias já havia deslizado para a escuridão.
O subsolo era uma vitrine de opulência fria, um contraste brutal com a fé ostensiva lá em cima. O ar era pesado, saturado com o odor adocicado de sedativos. Elias contornou uma coluna de granito e parou. Diante dele, isolada por paredes de vidro blindado, estava Beatriz. O aposento simulava uma suíte de luxo, mas a esterilidade era a de uma clínica de fachada. Ela estava sentada em uma poltrona de veludo, os olhos fixos num ponto invisível.
Elias forçou a fechadura eletrônica com o dispositivo extraído do servidor. A porta deslizou com um silvo pneumático. Ele se aproximou, o coração martelando contra as costelas.
— Beatriz? — Ele tocou o ombro dela. O corpo estava flácido, a pele fria.
Ela não se moveu. Seus olhos, embora abertos, não o reconheciam. O Coronel não a estava matando; ele a estava anulando. O plano era a internação permanente em uma clínica de fachada, onde a biometria dela seria usada para validar a renúncia ao legado, tornando-a legalmente inexistente antes que o relógio de Elias chegasse ao zero.
O tilintar metálico de chaves no corredor interrompeu seu choque. Elias colou-se na sombra da pilastra enquanto o Coronel Valente entrava, ajustando as abotoaduras de ouro com uma lentidão que exalava prazer.
— A renúncia será lida amanhã, Beatriz — a voz do Coronel era aveludada, uma carícia mortal. — Ninguém questiona a sanidade de uma Valente quando a família assina o laudo.
Elias sentiu o estômago revirar ao ver o Coronel tratar a própria filha como um ativo contábil. Ele precisava do código, da chave biométrica, mas o relógio em seu pulso emitiu um apito agudo, um alerta de proximidade que ecoou no silêncio da câmara. Valente parou, seus olhos estreitando-se na direção da sombra onde Elias se escondia. O tempo não estava apenas acabando; ele estava se fechando como uma armadilha. Ao ver Beatriz, inerte e dopada, Elias percebeu a crueldade final: ela não era apenas uma prisioneira, era o próprio cadeado que ele precisava arrombar.