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Chapter 3: O Santuário de Vidro

Elias infiltra-se no Santuário durante a procissão e descobre que Beatriz está sendo mantida em um estado de torpor medicamentoso para forçar sua renúncia legal. O Coronel Valente quase o descobre, e Elias percebe que a biometria de Beatriz é a chave para o Livro Negro, mas o tempo está se esgotando rapidamente.

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O Santuário de Vidro

O relógio de pulso de Elias vibrou contra o osso do rádio, um lembrete elétrico que ele não podia ignorar: 120 horas. O visor digital, um corte de luz azul sob a manga, não apenas contava o tempo; ele o devorava. A morte de Júlio, o técnico que ele sacrificara na noite anterior, ainda pesava como chumbo em seu estômago. O sacrifício comprara apenas uma verdade amarga: a Fundação Valente não estava apenas protegendo um segredo, estava preparando uma sucessão forçada.

Elias observava o Santuário de um beco úmido, onde o cheiro de incenso barato se misturava à maresia da cidade-santuário. A procissão de velas serpenteava as ruas de paralelepípedos como uma cicatriz de fogo. Para os fiéis, era devoção; para os homens de Valente, era a cortina de fumaça perfeita para uma purga social. Elias precisava entrar no subsolo, onde o servidor central exigia a assinatura biométrica de Beatriz. Sem ela, o Livro Negro permaneceria trancado, e a herdeira, apagada da história.

Ele se misturou à multidão, sentindo o peso dos olhares dos seguranças que varriam o público. O receptor improvisado em seu bolso aqueceu contra sua coxa, captando um pulso errático. O sinal era fraco, mas inconfundível. No centro do cortejo, um segurança de terno impecável — o mesmo que o confrontara na gala — travou o olhar nele. O reconhecimento foi instantâneo e gélido. Elias não recuou; ele se deixou levar pelo fluxo dos fiéis, desviando-se por uma fresta no muro de pedra que dava acesso aos dutos de serviço da fundação. O segurança acelerou, abrindo caminho entre as mulheres que rezavam, mas Elias já havia deslizado para a escuridão.

O subsolo era uma vitrine de opulência fria, um contraste brutal com a fé ostensiva lá em cima. O ar era pesado, saturado com o odor adocicado de sedativos. Elias contornou uma coluna de granito e parou. Diante dele, isolada por paredes de vidro blindado, estava Beatriz. O aposento simulava uma suíte de luxo, mas a esterilidade era a de uma clínica de fachada. Ela estava sentada em uma poltrona de veludo, os olhos fixos num ponto invisível.

Elias forçou a fechadura eletrônica com o dispositivo extraído do servidor. A porta deslizou com um silvo pneumático. Ele se aproximou, o coração martelando contra as costelas.

— Beatriz? — Ele tocou o ombro dela. O corpo estava flácido, a pele fria.

Ela não se moveu. Seus olhos, embora abertos, não o reconheciam. O Coronel não a estava matando; ele a estava anulando. O plano era a internação permanente em uma clínica de fachada, onde a biometria dela seria usada para validar a renúncia ao legado, tornando-a legalmente inexistente antes que o relógio de Elias chegasse ao zero.

O tilintar metálico de chaves no corredor interrompeu seu choque. Elias colou-se na sombra da pilastra enquanto o Coronel Valente entrava, ajustando as abotoaduras de ouro com uma lentidão que exalava prazer.

— A renúncia será lida amanhã, Beatriz — a voz do Coronel era aveludada, uma carícia mortal. — Ninguém questiona a sanidade de uma Valente quando a família assina o laudo.

Elias sentiu o estômago revirar ao ver o Coronel tratar a própria filha como um ativo contábil. Ele precisava do código, da chave biométrica, mas o relógio em seu pulso emitiu um apito agudo, um alerta de proximidade que ecoou no silêncio da câmara. Valente parou, seus olhos estreitando-se na direção da sombra onde Elias se escondia. O tempo não estava apenas acabando; ele estava se fechando como uma armadilha. Ao ver Beatriz, inerte e dopada, Elias percebeu a crueldade final: ela não era apenas uma prisioneira, era o próprio cadeado que ele precisava arrombar.

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