O Preço da Informação
O zumbido metálico contra o osso do pulso de Elias não era um lembrete; era um veredito. O visor digital do relógio, um presente do Coronel Valente sob o disfarce de gratidão paternal, brilhava em vermelho gélido: 143 horas e 58 minutos. O dispositivo não contava o tempo; ele o subtraía. Cada tique era a prova de que o Coronel sabia exatamente o que ele descobrira. Elias tentou a técnica improvisada que lera em fóruns obscuros: envolver o pulso em papel alumínio para isolar a frequência. Assim que o metal tocou a pulseira, o relógio emitiu um bipe agudo, estridente o suficiente para fazer seus dentes doerem. Uma vibração violenta percorreu seu braço, seguida por uma mensagem na tela: VIOLAÇÃO DE INTEGRIDADE. PROTOCOLO DE PUNIÇÃO ATIVADO.
Elias soltou o ar, os dedos trêmulos buscando um cigarro que não acendeu. Ele não podia arrancar o dispositivo sem acionar um gatilho de segurança que, ele suspeitava, liberaria um agente químico ou alertaria a segurança da Fundação. A tecnologia era sofisticada demais para a província, uma marca clara da influência do Coronel. A única saída era infiltrar-se no epicentro: a festa de gala da Fundação Valente, onde o luxo servia de cortina de fumaça para a podridão.
O salão da Fundação era espesso, uma mistura sufocante de incenso de igreja e o perfume caro das elites que financiavam a fachada de caridade do Coronel. Elias ajustou o paletó, sentindo o peso frio do relógio — um grilhão digital que contava agora 138 horas. Ele encontrou Júlio, o técnico de TI da fundação, perto da mesa de buffet, fingindo interesse em uma taça de espumante. O rapaz tremia, os olhos varrendo o salão à procura de seguranças.
— Você está louco, Elias — sibilou Júlio. — O Coronel sabe tudo o que entra e sai da rede. Se eu tocar nesse servidor, eles me apagam antes que eu termine a primeira linha de código.
Elias inclinou-se, invadindo o espaço pessoal do ex-colega. — O Coronel já sabe que estou aqui, Júlio. Ele está apenas esperando para ver quem eu vou arrastar comigo. Eu sei sobre os desvios da conta de manutenção. O dinheiro das creches que você usou para cobrir suas dívidas de jogo. Posso entregar a prova agora mesmo para o chefe da segurança ou você pode me dar o acesso ao servidor central. O que prefere?
Júlio empalideceu, o suor brotando em sua testa. Ele olhou para o Coronel Valente, que do outro lado do salão, sorria enquanto apertava a mão de um bispo. O técnico cedeu, mas a um preço que Elias não esperava. — Eu abro o acesso, mas você precisa me entregar o nome do informante que a Beatriz usava. Aquele que passava os dados para você antes dela sumir. Preciso provar que estou do lado deles, ou serei o próximo a desaparecer.
Elias sentiu o estômago revirar. Entregar o informante era condenar um aliado, mas a imagem de Beatriz presa o forçou a assentir. No subsolo, o ar era gélido, carregado pelo zumbido das ventoinhas. Elias conectou o dispositivo de extração ao terminal. O 'Livro Negro' não era um mito; era uma estrutura de dados fragmentada, disfarçada sob a contabilidade de doações. Enquanto a barra de progresso avançava, ele encontrou o log de movimentação de ativos. O servidor físico não estava no andar superior; estava enterrado sob o santuário, em uma câmara blindada que exigia a assinatura biométrica de Beatriz. Ela era a chave viva de criptografia.
Um alarme agudo rompeu o silêncio. O sistema detectara o bypass. — Eles estão vindo! — gritou Júlio, enquanto o sistema travava as portas. Elias escapou por um duto de ventilação, mas ao olhar para trás, viu os seguranças arrastando Júlio pelo colarinho, o técnico gritando por clemência.
De volta ao seu esconderijo, o relógio vibrou com uma intensidade insuportável. 132 horas. O celular iluminou-se com uma foto de Júlio caído sobre o console, o rosto congelado em choque. Abaixo da imagem, um áudio do Coronel Valente rodava: — Você sempre foi um sentimentalista, Elias. Acha que a verdade tem valor neste santuário? Júlio era um erro de cálculo que eu precisava corrigir. Obrigado por me indicar o caminho até ele. Agora, o servidor está limpo e você... você é apenas um rastro de poeira que esqueci de limpar. O Livro Negro é a única razão pela qual você ainda respira, mas a contagem regressiva acaba de ser acelerada em doze horas. Tente sobreviver até o amanhecer.