Sombras no Pátio
A umidade da última tempestade ainda impregnava o ar, um cheiro de terra molhada e madeira antiga que Beatriz tentava varrer para fora do pátio. O som rítmico da vassoura contra o ladrilho hidráulico era o único compasso de sua manhã, até que o portão de ferro rangeu com um peso que não pertencia ao Seu Arnaldo. Um homem de terno cinza, cuja postura impecável parecia um insulto à desordem do jardim, entrou sem ser anunciado. Atrás dele, o Dr. Valente observava da calçada, com aquele sorriso de quem já havia vencido a partida antes mesmo da primeira jogada.
— Beatriz, imagino — o homem disse, sem esperar convite. Seus olhos escanearam a estrutura da casa de chá com uma fome técnica, ignorando as plantas que ela tanto se esforçava para manter vivas. — Sou representante da Vanguarda Imobiliária. O leilão judicial está marcado, mas nossa oferta de compra direta ainda está na mesa. É uma saída digna para um imóvel que, francamente, já não sustenta a própria existência.
Ele depositou um envelope sobre a mesa de madeira, o mesmo local onde, dias atrás, Lucas a ajudara a entender a geometria da restauração. A superfície, marcada pelo tempo e pelo cuidado, parecia pequena demais para a frieza do documento. — Vocês não têm autorização para entrar aqui — Beatriz respondeu, a voz firme apesar do nó em sua garganta. O representante ignorou-a, virando as costas com a displicência de quem detinha o tempo. O prazo de quarenta e oito horas estava impresso naquelas páginas, um cronômetro silencioso que começou a correr assim que o portão se fechou.
Antes que ela pudesse respirar, o Dr. Valente atravessou o portão, seus sapatos de sola rígida batendo contra o lajedo como tiros. — Recebi novas queixas, Beatriz. O fluxo de gente estranha, o barulho constante dessa reforma amadora... o juiz não tolerará mais essa perturbação ao sossego público.
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas. Ela se lembrou da lição de Lucas: o pátio não era apenas um quintal, era um sistema de ventilação e ancoragem. — Não é uma reforma amadora, Dr. Valente — retrucou ela, apontando para as vigas expostas. — O que o senhor chama de barulho é um trabalho de preservação de alicerces. Se a estrutura ceder por falta de manutenção, a responsabilidade recairá sobre os vizinhos que impediram os reparos necessários.
Valente estreitou os olhos, um brilho de ódio contido cruzando seu rosto. — A vistoria oficial virá. E quando vier, não haverá diário ou infusão que salve este lugar da interdição.
Ele saiu, deixando Beatriz imersa em um silêncio pesado. Ela correu para a sala dos fundos, onde o diário de infusões de sua avó repousava. Lucas a encontrou ali, imersa nas páginas amareladas, o rosto iluminado pela luz fraca da tarde. Ele limpava as mãos em um pano encardido, o ceticismo habitual dando lugar a uma curiosidade crescente ao ver a intensidade dela.
— Você não vai encontrar a solução para o leilão nas receitas de chá, Beatriz — ele murmurou, aproximando-se.
— Não é sobre o chá, Lucas. É sobre o que a prefeitura finge que não sabe. — Ela apontou para uma nota marginal de trinta anos atrás. “O tombamento provisório protege a estrutura, mesmo que o cartório insista no silêncio”.
Lucas pegou o diário, seus dedos seguindo a caligrafia da avó de Beatriz. O ceticismo em seu rosto desmoronou. — Se isso for real... se o tombamento foi protocolado e nunca revogado, a demolição não é apenas um erro, é um crime contra o patrimônio. Eles não podem tocar em um único tijolo sem uma ordem federal.
Beatriz encarou o envelope da construtora sobre a mesa. Quarenta e oito horas. A tentação da venda, do dinheiro que apagaria suas dívidas e a libertaria daquele peso, lutava contra a descoberta que acabara de mudar o equilíbrio de poder. Ela agora tinha uma arma, mas o relógio não parava de tiquetaquear.