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Chapter 4: O Sabor da Desconfiança

Beatriz falha ao tentar preparar um chá seguindo o diário de sua avó, enfrentando a crítica severa de Seu Arnaldo. Com a ajuda técnica de Lucas, ela aprende a respeitar o ritmo do pátio e consegue preparar uma infusão correta, ganhando um breve momento de conexão. No entanto, a paz é interrompida pelo Dr. Valente, que exige o fechamento do pátio sob ameaça judicial. Simultaneamente, Beatriz recebe uma oferta tentadora de uma construtora com prazo de 48 horas, aumentando a pressão sobre sua decisão de vender ou salvar o imóvel.

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O Sabor da Desconfiança

O vapor que subia do bule de cerâmica lascada não carregava o aroma de terra úmida e especiarias prometido pelo diário de minha avó; cheirava a água fervida demais e folhas queimadas. Eu observava a xícara com uma angústia crescente, sentindo o pátio ecoar meu fracasso. A madeira do assoalho rangia sob o peso de uma restauração que eu mal sabia conduzir, e o silêncio do ambiente era cortado apenas pelo tique-taque do relógio de parede — uma contagem regressiva para o leilão que eu ainda não sabia como deter.

Seu Arnaldo estava sentado à mesa de canto, as mãos calejadas apoiadas sobre o tampo gasto. Ele não disse uma palavra, mas seus olhos, semicerrados sob as sobrancelhas espessas, seguiam cada movimento meu. Ele era o guardião daquela memória, e eu, a intrusa que tentava replicar um legado com a habilidade de uma iniciante desastrada.

— A temperatura da água estava incorreta, não estava? — perguntei, sentindo o rosto esquentar. Eu tinha esquecido de esperar o resfriamento necessário para as folhas de jasmim e gengibre, apressando o processo como se estivesse preparando um café de escritório entre reuniões.

Seu Arnaldo suspirou, um som curto e seco. Ele estendeu o braço e empurrou a xícara para o centro da mesa, intocada.

— O legado não é um protocolo de escritório, Beatriz. Se quer salvar este lugar, comece aprendendo que a pressa é o veneno da infusão. — Ele se levantou, deixando a xícara para trás. O líquido, agora opaco e amargo, refletia a luz fraca da tarde, um lembrete visual de minha incompetência.

Mais tarde, com o pátio mergulhado na penumbra, abri o diário sob a luz de uma luminária improvisada. O cheiro de ervas úmidas e mofo pairava sobre o ambiente como uma sentença. Eu não tinha margem para erros; cada falha técnica era um argumento a mais para a demolição que o Dr. Valente tanto desejava.

— Você está lendo como se fosse um manual de instruções de eletrodoméstico — a voz de Lucas cortou o silêncio, seca e precisa. Ele surgiu da lateral da cozinha, limpando as mãos sujas de poeira de tijolo em uma estopa.

Fechei o diário com um movimento brusco.

— É um diário de infusões, Lucas. Minha avó anotava a 'paciência das folhas', mas eu não entendo o que ela quis dizer. O chá ficou amargo, insuportável.

Lucas aproximou-se, ignorando minha defensiva. Ele pegou a xícara que eu usara mais cedo e a cheirou, franzindo o cenho.

— Você usou água fervendo direto na erva-cidreira. O pátio é um organismo vivo, Beatriz. A umidade aqui é alta, as ervas secam de forma diferente. Você não está apenas servindo uma bebida; está lidando com a química de um ambiente que está morrendo.

Ele caminhou até o centro do pátio, apontando para as vigas que ele mesmo ajudara a escorar.

— Se você quer que eles confiem em você, pare de tentar vender a casa e comece a sentir o que ela pede. Observe como a luz entra, como a umidade afeta o estoque. A técnica vem da atenção, não da pressa.

Aquela noite, sob a orientação técnica de Lucas, refiz o processo. Medimos a temperatura, ajustamos o tempo de infusão e, quando finalmente servi uma nova xícara, o aroma de camomila e mel preencheu o pátio, suave e acolhedor. Lucas provou, assentindo silenciosamente. Pela primeira vez, a tensão entre nós cedeu, substituída por um respeito profissional que parecia uma pequena vitória.

Mas o sucesso foi breve. O som dos martelos na manhã seguinte foi bruscamente silenciado por uma batida metálica no portão. Beatriz mal teve tempo de sorrir para a dona Irene, sua primeira cliente fiel, antes que a figura imponente do Dr. Valente atravessasse a entrada, envolto em um terno que parecia deslocado entre as samambaias.

— Isto é inaceitável, Beatriz — disparou ele, ignorando a xícara que a senhora segurava. — O ruído das suas reformas e o fluxo desenfreado de estranhos neste pátio violam o sossego das vizinhanças históricas. Exijo que encerre as atividades imediatamente.

Beatriz sentiu o sangue ferver, mas manteve a postura.

— Este pátio é patrimônio, Valente. Tenho o direito de restaurá-lo.

Ele sorriu com desdém, tirando um envelope do bolso interno.

— Se o barulho não cessar até o pôr do sol, a ação judicial será implacável.

No mesmo instante, o celular de Beatriz vibrou: uma notificação de uma construtora, oferecendo um valor astronômico pelo terreno, com um prazo de quarenta e oito horas para aceitação. O contraste entre a ameaça fria de Valente e a tentação digital era sufocante. Ela guardou o celular, recusando-se a dar ao advogado o prazer de vê-la hesitar, mas o peso da decisão — entre o legado e a saída fácil — começou a dobrar seus ombros.

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