O Diário sob o Assoalho
A poeira da sala principal não era apenas sujeira; era um sedimento de tempo que pesava sobre os ombros de Beatriz como uma sentença. Ela não viera para resgatar memórias, mas para encontrar a escritura, liquidar o leilão judicial e retornar à previsibilidade implacável de sua vida na capital. Cada passo sobre o assoalho de madeira de lei produzia um rangido agudo, um protesto metálico que parecia zombar de sua pressa.
Com as unhas lascadas pela limpeza forçada do dia anterior, Beatriz forçou a ponta de um pé de cabra enferrujado sob uma tábua solta perto da janela. O metal gemeu e a madeira cedeu com um estalo seco de fibra rompida. Ela esperava encontrar cupins ou o ninho de roedores que Seu Arnaldo mencionara com desdém, mas, ao remover a tábua, revelou um compartimento cavado diretamente na terra batida. Ali, envolto em um tecido encerado, repousava um diário de couro gasto.
Beatriz abriu o volume. A caligrafia firme de sua avó saltou aos olhos, detalhando não apenas receitas, mas os humores dos clientes que cruzavam aquele pátio. “Para a ansiedade do Sr. Arnaldo, o jasmim deve ser colhido antes do orvalho,” dizia uma nota na margem. O pragmatismo de Beatriz vacilou. O diário não era um objeto de valor comercial; era um mapa de curas.
A porta de madeira rangeu. Lucas entrou sem pedir licença, o olhar técnico varrendo o ambiente com uma severidade que a fez esconder o diário sob a pilha de documentos. Ele não precisou de muito tempo para sentir o cheiro de mofo e desleixo que impregnava o ar.
— Você está tentando vender isso como um terreno baldio, Beatriz? — Lucas disparou, a voz ecoando pelas paredes nuas. — Isso é um crime contra a história do bairro. A estrutura está gritando por socorro.
Beatriz levantou-se, a postura defensiva. — É um fardo jurídico, Lucas. Eu não tenho o luxo de ser uma romântica. O leilão está marcado para o fim do mês.
Ele deu dois passos rápidos, apontando para o teto. Uma rachadura em formato de raio serpenteava o gesso. — A prefeitura já marcou a vistoria. Se isso ceder, a condenação é imediata. A casa vai vir abaixo antes do leilão. Verifique a notificação no envelope azul sobre a mesa. Se você não protocolar o pedido de restauração urgente, a demolição compulsória será o seu único destino.
Sozinha novamente, o silêncio no pátio tornou-se uma cobrança. O diário, com seu cheiro seco de erva-cidreira e poeira, parecia um peso. Beatriz abriu o livro na data de 1984, descrevendo uma mistura de camomila e raiz de valeriana usada para 'acalmar o ânimo dos vizinhos durante a enchente'. A casa não era apenas um ativo imobiliário; era o sistema nervoso daquela comunidade. Ela fechou o livro com força, mas o gesto foi interrompido por um som rítmico: ploc, ploc, ploc.
A chuva, antes um ruído distante, tornou-se um tamborilar agressivo. Uma goteira persistente encontrou o ponto exato onde ela depositara o diário. O papel amarelado começou a enrugar sob a umidade implacável. Beatriz tentou proteger as páginas com as mãos, sentindo a frieza da água infiltrar-se por entre os dedos. Não havia como vedar aquele teto sozinha. O desespero, antes uma abstração burocrática, tornou-se uma urgência física. Ela olhou para o pátio, onde Lucas ainda inspecionava a fachada. O custo daquela ajuda não era apenas o tempo; era a admissão de sua própria fragilidade.
Ela caminhou até a porta, a voz carregada de uma hesitação que ele percebeu imediatamente. — Lucas! — Ao vê-lo se aproximar, Beatriz percebeu que, ao salvar o diário, ela acabava de se comprometer com a restauração de um lugar que, até cinco minutos atrás, ela queria ver reduzido a escombros.